100 anos da mecânica quântica: pesquisa revela que físicos ainda não concordam sobre a natureza da realidade

Renê Fraga
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Em 1925, Werner Heisenberg enviou uma carta a Wolfgang Pauli confessando que suas ideias sobre mecânica estavam ficando “cada vez mais radicais”. Anexou um manuscrito e pediu a opinião do amigo: deveria terminá-lo… ou queimá-lo?

Esse manuscrito, conhecido como artigo da Umdeutung (“reinterpretação”, em alemão), acabou se tornando o marco oficial do nascimento da mecânica quântica moderna — a teoria que descreve o comportamento das partículas subatômicas e que, até hoje, desafia nossa intuição.

Agora, no centenário dessa revolução científica, a revista Nature decidiu fazer uma pergunta simples (mas impossível) a 1.101 físicos: “Qual é a melhor interpretação da mecânica quântica?” O resultado?

Um retrato fascinante de um campo onde, mesmo com experimentos extremamente precisos, a filosofia ainda divide opiniões.

O que a pesquisa revelou?

A pesquisa, que contatou mais de 15 mil cientistas, mostrou que não existe consenso sobre como interpretar o mundo quântico. Mas alguns pontos chamam atenção:

  • 86% acreditam que precisamos de uma interpretação mais intuitiva e física da matemática quântica.
  • 75% acham que a teoria quântica atual será substituída por algo mais completo no futuro.

Quando perguntados sobre o famoso problema da medição — o mistério de como e quando um estado quântico “vira” realidade — a resposta mais popular foi a interpretação de Copenhague (36%).

Essa interpretação, defendida por Niels Bohr e Werner Heisenberg, diz que partículas só “escolhem” um estado quando são medidas. Antes disso, vivem em uma espécie de limbo probabilístico chamado superposição.

Mas há um detalhe curioso: mais da metade dos que escolheram Copenhague admitiram não ter tanta certeza assim da resposta.

Quais são as outras interpretações?

Além de Copenhague, outras visões também têm seguidores:

  • Abordagens baseadas em informação (17%) — tratam a realidade quântica como um fluxo de dados, não de objetos físicos.
  • Muitos Mundos (15%) — cada evento quântico cria universos paralelos onde todas as possibilidades acontecem.
  • Teoria da Onda Piloto de Bohm-de Broglie (7%) — sugere que partículas seguem trajetórias guiadas por uma “onda oculta”.

E 16% dos participantes simplesmente rejeitaram todas as opções, criando suas próprias interpretações ou dizendo que não precisamos de nenhuma.


Por que isso importa?

Para alguns especialistas, como Elise Crull (City University of New York), essa diversidade de opiniões é saudável: mostra que os cientistas levam a sério as questões fundamentais.

Já outros, como o filósofo da física Tim Maudlin (NYU), veem nisso um problema: “É embaraçoso que não tenhamos uma história clara para contar sobre o que é a realidade”, disse.

O físico teórico Sean Carroll (Johns Hopkins) concorda: “Não basta calcular previsões experimentais. Precisamos entender o que a teoria realmente significa.”


Então… estamos perdidos?

Não exatamente. A mecânica quântica é uma das teorias mais testadas e confirmadas da história da ciência. O que está em disputa não é se ela funciona, mas o que ela nos diz sobre a natureza do universo.

Como disse um dos entrevistados, talvez a falta de consenso não seja sinal de fracasso, mas de que ainda estamos no meio da história.

Afinal, a física quântica nasceu para desafiar certezas e parece que continuará fazendo isso por mais 100 anos.


📦 Curiosidades quânticas

  1. O “shut up and calculate” — apelido irônico dado à interpretação de Copenhague, sugerindo que é melhor parar de filosofar e apenas fazer as contas.
  2. Gato de Schrödinger — experimento mental criado para criticar a interpretação de Copenhague, onde um gato está vivo e morto ao mesmo tempo até ser observado.
  3. Superposição no dia a dia — embora pareça ficção, o princípio é usado em tecnologias como a computação quântica e a criptografia quântica.
  4. Resposta de 7% — dos 15.582 físicos contatados, apenas 1.101 responderam à pesquisa.
  5. Umdeutung quase não existiu — Heisenberg realmente considerou destruir o artigo que fundou a mecânica quântica.

Fontes e Referências

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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