O Atlântico está enfraquecendo: sinais de um colapso climático em andamento

Renê Fraga
4 min de leitura

✨ Principais destaques:

  • A circulação oceânica do Atlântico Norte (AMOC), que inclui a famosa Corrente do Golfo, pode entrar em colapso após 2100.
  • Esse processo começa décadas antes, com a perda da convecção profunda no Atlântico Norte, causada pelo aquecimento global.
  • As consequências seriam drásticas: invernos muito mais rigorosos na Europa, mudanças nas chuvas tropicais e impactos globais na agricultura e nos ecossistemas.

A ciência acaba de trazer um alerta que parece saído de um filme de ficção científica, mas é muito real: a Circulação Meridional do Atlântico (AMOC), um dos motores mais importantes do clima da Terra, pode parar de funcionar no próximo século se as emissões de gases de efeito estufa continuarem em alta.

Esse sistema funciona como uma “esteira transportadora” dos oceanos, levando águas quentes e salgadas dos trópicos para o norte e trazendo águas frias e densas de volta para o sul.

É ele que ajuda a manter os invernos da Europa mais amenos e regula chuvas e temperaturas em várias partes do planeta.

Um estudo recente, publicado na revista Environmental Research Letters e conduzido por cientistas do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (PIK), mostra que esse equilíbrio pode estar prestes a se desfazer e mais rápido do que se imaginava.

Como começa o colapso: o enfraquecimento da convecção profunda

O ponto crítico não é o colapso imediato da circulação, mas sim a perda da convecção profunda em regiões-chave do Atlântico Norte, como os mares da Groenlândia, Labrador e Irminger.

Normalmente, no inverno, a água da superfície esfria, fica mais densa e afunda, alimentando a circulação oceânica.

Mas com o aquecimento global, esse processo está sendo interrompido:

  • A atmosfera mais quente impede que a superfície do oceano perca calor.
  • A água superficial permanece mais leve e menos salgada.
  • Isso cria um ciclo de retroalimentação: quanto menos a água afunda, mais fraca fica a circulação, e mais difícil é retomar o equilíbrio.

Segundo os modelos climáticos, esse “gatilho” pode ser acionado já em meados deste século, décadas antes do colapso total.

O que aconteceria se a AMOC parar?

As consequências seriam profundas e globais. A Europa, que hoje se beneficia do calor transportado pelo Atlântico, enfrentaria invernos muito mais rigorosos e verões secos.

Nos trópicos, haveria uma mudança drástica nas chuvas: cinturões de precipitação poderiam se deslocar, alterando o regime das monções e trazendo secas severas em algumas regiões e enchentes em outras.

Alguns modelos indicam que o transporte de calor para o norte poderia cair para menos de 20% do atual em cenários extremos, quase a zero. Isso significaria uma reorganização completa do clima global.

Ainda há tempo para agir?

Os cientistas alertam que, mesmo que não seja mais possível eliminar totalmente o risco, reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa é a única forma de diminuir a probabilidade e a gravidade desse cenário.

Um detalhe importante: os modelos usados no estudo ainda não consideram totalmente o derretimento acelerado da Groenlândia, que despeja grandes volumes de água doce no Atlântico.

Esse fator pode acelerar ainda mais o enfraquecimento da AMOC, tornando o risco maior do que o previsto. Como destacou Stefan Rahmstorf, coautor do estudo, o que está em jogo não é apenas um fenômeno oceânico, mas o coração do sistema climático da Terra.

Se essa engrenagem parar, os impactos serão sentidos em todos os continentes, afetando agricultura, recursos hídricos e ecossistemas inteiros.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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