Principais destaques:
- A Lua absorve íons da atmosfera terrestre há bilhões de anos, inclusive nos dias atuais.
- O campo magnético da Terra não impede esse processo; ele funciona como um “corredor invisível” até a Lua.
- O solo lunar pode guardar registros preciosos da história da atmosfera e do magnetismo do nosso planeta.
Por muito tempo, acreditou-se que a Lua fosse apenas uma espectadora passiva da Terra. Mas uma nova pesquisa científica mostra algo bem diferente.
Nosso satélite natural vem absorvendo pequenas partículas da atmosfera terrestre de forma silenciosa há bilhões de anos, em um fenômeno tão curioso quanto surpreendente.
Esse processo acontece graças à interação entre o vento solar e o campo magnético da Terra. Em vez de proteger totalmente a atmosfera, como se pensava, o magnetismo do planeta acaba ajudando a transportar íons até a superfície lunar.
O papel inesperado do campo magnético da Terra
Durante cerca de 20 anos, a principal teoria dizia que esse “vazamento” de partículas só poderia ter ocorrido antes da formação do campo magnético terrestre. A lógica era simples: o magnetismo deveria segurar os íons e impedir que eles escapassem.
O novo estudo, porém, mostra o contrário. As linhas do campo magnético que formam a chamada cauda magnética da Terra, sempre apontando para longe do Sol, funcionam como verdadeiras rodovias invisíveis. Quando a Lua atravessa essa região, algo que acontece todo mês próximo à fase de Lua cheia, ela recebe uma chuva de íons vindos da atmosfera terrestre.
Os modelos indicam que esse transporte começou há cerca de 3,7 bilhões de anos e continua até hoje.
O solo lunar como cápsula do tempo
As evidências desse fenômeno estão no regolito lunar, a camada de poeira e fragmentos que cobre a Lua. Amostras coletadas por missões como a Apollo 17 revelaram a presença de íons voláteis, como o nitrogênio, que dificilmente teriam outra origem além da Terra.
Isso muda completamente a forma como os cientistas enxergam o solo lunar. Em vez de conter apenas vestígios da atmosfera primitiva do planeta, ele pode guardar registros de diferentes fases da evolução atmosférica e do campo magnético da Terra ao longo de bilhões de anos.
Segundo os pesquisadores, cruzar dados dessas partículas preservadas na Lua com simulações computacionais permite reconstruir capítulos importantes da história do nosso planeta.
O que isso significa para futuras missões espaciais
As descobertas chegam em um momento estratégico. Programas como o Artemis e as missões lunares da China devem coletar novas amostras de solo nos próximos anos.
Esse material pode ajudar a preencher lacunas importantes sobre a formação da atmosfera terrestre e até sobre como planetas perdem gases ao longo do tempo.
O fenômeno também ajuda a entender processos semelhantes em outros corpos do Sistema Solar. Mercúrio, por exemplo, apresenta uma longa cauda de partículas arrancadas pelo vento solar, e até a própria Lua possui uma cauda tênue de átomos de sódio.
Os cientistas acreditam que estudar essa “troca invisível” entre a Terra e a Lua pode trazer pistas valiosas sobre a habitabilidade de planetas como Marte, que já teve campo magnético no passado, mas hoje está praticamente desprotegido.



