Principais destaques:
- Pesquisadores encontraram cerca de 15% menos receptores de glutamato em cérebros de pessoas autistas.
- A diferença aparece em várias regiões do cérebro, com maior impacto no córtex cerebral.
- A descoberta pode abrir caminho para diagnósticos mais objetivos e tratamentos futuros.
Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Yale deram um passo histórico ao identificar a primeira diferença molecular mensurável nos cérebros de pessoas autistas.
O estudo mostrou que adultos autistas apresentam uma redução significativa nos receptores de glutamato, um dos principais neurotransmissores do cérebro, quando comparados a indivíduos neurotípicos.
Os resultados foram publicados em dezembro no The American Journal of Psychiatry e ajudam a transformar a compreensão científica do autismo, que até hoje se baseava quase exclusivamente na observação de comportamentos.
O que muda no cérebro autista
O estudo analisou 32 adultos entre 18 e 36 anos, metade deles autistas. Usando tomografia por emissão de pósitrons e eletroencefalografia, os cientistas mediram a disponibilidade do receptor metabotrópico de glutamato 5, conhecido como mGlu5.
A equipe observou que os participantes autistas tinham níveis mais baixos desse receptor em praticamente todo o cérebro. A redução foi ainda mais evidente no córtex cerebral, região ligada a funções como percepção, linguagem e tomada de decisões.
Para o psiquiatra infantil James McPartland, um dos líderes da pesquisa, essa é uma descoberta inédita. Segundo ele, trata-se de uma diferença concreta, mensurável e com potencial impacto direto na forma como o autismo é compreendido.
O papel do glutamato no equilíbrio do cérebro
O glutamato funciona como o principal neurotransmissor excitatório do cérebro, estimulando os neurônios a se comunicarem. Ele precisa estar em equilíbrio com sinais inibitórios para que o cérebro funcione de forma adequada.
Os novos dados reforçam a teoria de que o autismo envolve um desequilíbrio entre esses dois sistemas. O primeiro autor do estudo, Adam Naples, também observou uma forte correlação entre a quantidade de receptores mGlu5 e os padrões de ondas cerebrais medidos por EEG, especialmente no córtex.
Um futuro com diagnósticos mais objetivos
Atualmente, o diagnóstico do autismo é feito com base em interações sociais, linguagem e comportamento. Não existem exames laboratoriais ou de imagem que confirmem a condição.
Essa descoberta pode mudar esse cenário. Segundo os pesquisadores, no futuro, exames como o EEG, que é mais acessível e barato do que a tomografia PET, podem ajudar a identificar marcadores biológicos do autismo. O radiologista David Matuskey destaca que isso pode facilitar pesquisas em larga escala e ampliar o acesso.
Os cientistas também veem potencial para o desenvolvimento de tratamentos mais direcionados. Embora muitas pessoas autistas não precisem de medicação, terapias focadas no receptor mGlu5 poderiam ajudar quem enfrenta sintomas que impactam a qualidade de vida.
O estudo analisou apenas adultos com habilidades cognitivas médias ou acima da média, mas novas pesquisas já estão sendo planejadas com crianças, adolescentes e pessoas com deficiência intelectual.
