✨ Principais destaques:
- Empresas americanas tiveram papel fundamental na criação da rede de vigilância chinesa.
- Documentos e e-mails vazados mostram como softwares foram adaptados para monitoramento e repressão.
- Uma investigação de três anos revelou detalhes inéditos dessa parceria controversa.
Um estado digital vigiado
Nas últimas décadas, a China vem chamando atenção do mundo pelo seu gigantesco sistema de monitoramento, considerado o mais sofisticado já criado.
O que pouca gente sabia, até agora, é que empresas de tecnologia dos Estados Unidos participaram diretamente da construção dessa rede de vigilância.
Uma investigação profunda da agência Associated Press (AP) revelou que companhias americanas, em especial a IBM, não só forneceram tecnologia como também trabalharam lado a lado com órgãos chineses e contratadas do setor de defesa para projetar ferramentas que hoje ajudam a moldar o “Estado policial digital” do país.
O mais impressionante (e perturbador) é que, em alguns casos, essas empresas chegaram a apresentar seus produtos diretamente para a polícia chinesa, oferecendo soluções para rastrear, analisar e até prever comportamentos de cidadãos.
Vazamentos, documentos secretos e anos de apuração
O trabalho jornalístico não foi simples. Foram três anos de investigação, entrevistas com mais de 100 fontes em três continentes e acesso a milhares de documentos, incluindo materiais classificados do governo chinês e dados vazados de empresas de vigilância.
Entre as descobertas estão:
- E-mails e banco de dados da empresa Landasoft (antiga parceira da IBM), mostrando que seu software era usado para identificar e categorizar cidadãos da minoria uigur em Xinjiang, região onde ocorreram denúncias de detenções em massa.
- Registros de transações governamentais chinesas, revelando compras de tecnologias estrangeiras feitas diretamente pela polícia.
- Manuais, folhetos e apresentações comerciais em que ferramentas de análise e monitoramento eram anunciadas explicitamente para uso policial.
Esse material confirmou que softwares originalmente desenvolvidos para segurança corporativa ou uso policial nos EUA foram personalizados e integrados ao sistema chinês para criar um mecanismo de vigilância populacional sem precedentes.
“Policiamento preditivo”: o futuro sombrio já chegou
Um dos aspectos mais inquietantes revelados é a aplicação de algo chamado “policiamento preditivo”.
Com ele, autoridades não apenas identificam suspeitos em tempo real, mas também tentam prever quem pode cometer um “crime”, antes mesmo de qualquer ação.
Esses sistemas analisam uma infinidade de dados pessoais: desde chamadas telefônicas e mensagens até registros de energia elétrica, DNA, pagamentos digitais e deslocamentos de avião ou trem.
Combinados, esses dados criam um retrato detalhista da vida de milhões de pessoas, permitindo ao Estado decidir quem deve ser interrogado, monitorado ou até preso.
Para muitos especialistas, essa tecnologia representa uma ameaça sem precedentes às liberdades individuais, pois transforma qualquer cidadão em um potencial suspeito.
O peso da descoberta
O levantamento da AP mostrou que, mesmo diante de sanções e regulamentações, algumas empresas americanas, direta ou indiretamente, foram peças-chave na formação do modelo chinês de vigilância que hoje assusta o mundo.
Apesar de todas as respostas oficiais afirmarem o cumprimento da lei, os documentos sugerem que a realidade foi bem mais complexa.
Além disso, a própria investigação enfrentou riscos: jornalistas da AP chegaram a ser rastreados e interrogados pelas autoridades chinesas enquanto apuravam a história.
O resultado é impressionante e preocupante: uma teia de cooperação tecnológica que ajudou a erguer o maior e mais intrusivo sistema de vigilância digital do planeta.
