Conclave: Como os cardeais produzem a fumaça branca e preta?

Renê Fraga
4 min de leitura

Um dos momentos mais aguardados durante a eleição de um novo Papa é a famosa fumaça que sai da chaminé da Capela Sistina. Mas você já parou para pensar como os cardeais produzem aquelas nuvens brancas ou pretas que anunciam ao mundo se o próximo líder da Igreja Católica foi escolhido?

A resposta envolve tradição, um pouco de química e algumas tentativas (e erros) ao longo dos séculos. Vamos desvendar esse mistério!

A Origem da Fumaça: Uma Tradição Centenária

Desde o século XV, os cardeais queimam as cédulas de votação para manter o sigilo do conclave. No entanto, foi só no século XVIII, quando uma chaminé foi instalada na Capela Sistina para proteger os afrescos de Michelangelo da fuligem, que a fumaça começou a ser vista pelo público.

Naquela época, a fumaça não era um sinal intencional, mas as pessoas rapidamente associaram sua cor ao resultado da votação. Se saía fumaça, significava que ainda não havia um novo Papa. Se não saía, era porque a escolha tinha sido feita.

Só que… isso era bem confuso. Afinal, como saber se a fumaça era clara o suficiente para indicar um resultado?

Fumata Nera x Fumata Bianca: O Nascimento dos Sinais

Para resolver a ambiguidade, o Vaticano padronizou o sistema no século XIX:

  • Fumaça preta (fumata nera) = Nenhum consenso.
  • Fumaça branca (fumata bianca) = Novo Papa eleito.

No início, usavam palha úmida e alcatrão para gerar a fumaça preta. Quem já tentou acender uma fogueira com lenha molhada sabe que o fogo fica fraco e produz muita fumaça escura. Isso acontece porque a água evapora primeiro, deixando a combustão incompleta – ou seja, o material não queima totalmente, liberando fuligem.

Já quando o fogo pegava direito, a fumaça ficava mais clara, quase transparente. Mas e se fosse cinza? Seria preto ou branco? Essa dúvida causou confusão em conclaves passados, como os de 1939 e 1958.

A Química Entra em Cena

Para evitar mal-entendidos, o Vaticano modernizou o processo. Desde os anos 1970, em vez de depender da queima natural das cédulas, os cardeais usam compostos químicos que garantem cores bem definidas.

A Receita da Fumaça Preta

Em 2013, o Vaticano revelou a fórmula:

  • Perclorato de potássio (um oxidante que ajuda na queima)
  • Antraceno (um hidrocarboneto derivado do alcatrão, que produz fumaça densa)
  • Enxofre (controla a temperatura da queima)

Essa mistura é feita para queimar de forma ineficiente, liberando muita fuligem – daí a cor preta intensa, parecida com a fumaça de um pneu queimando.

A Receita da Fumaça Branca

Já o sinal de “novo Papa” é produzido com:

  • Clorato de potássio (um oxidante mais potente, que acelera a queima)
  • Lactose (o açúcar do leite, que queima de forma limpa, virando vapor e CO₂)
  • Resina de pinho (produz uma fumaça branca e aromática quando queimada)

Essa combinação gera uma combustão rápida e limpa, criando uma nuvem branca e volumosa, quase como um sinal de fumaça de festa!

De Acidente Histórico a Ciência Aplicada

O que começou como um efeito colateral da queima de votos virou um sistema preciso de comunicação. Hoje, graças à química, não há dúvidas:

  • Fumaça preta densa = Nada decidido.
  • Fumaça branca brilhante = Habemus Papam!

E assim, com um toque de tradição e outro de modernidade, o Vaticano mantém viva uma das cerimônias mais simbólicas do mundo.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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