Conteúdo gerado por inteligência artificial está mudando a internet

Renê Fraga
4 min de leitura

Principais destaques

  • Vídeos, músicas, imagens e textos gerados por IA estão invadindo YouTube, Spotify, Wikipedia e até revistas literárias.
  • Esse “conteúdo-lixo digital” atrai cliques, espalha desinformação e prejudica criadores de verdade.
  • O problema cresce rápido e já ameaça a forma como consumimos cultura e informação online.

O que é exatamente o “AI Slop”?

Se você já se deparou com vídeos estranhos no YouTube, como partidas de futebol com zumbis ou novelas estreladas por gatos ou bandas desconhecidas no Spotify com músicas genéricas, pode muito bem ter testemunhado um exemplo de “AI Slop”.

O termo, que em tradução livre significa “raspa”, “resto” ou “sobra”, é usado para classificar conteúdos de baixa ou média qualidade criados por inteligência artificial: imagens, vídeos, textos ou áudios feitos rapidamente, sem grande preocupação com autenticidade ou qualidade artística.

Essas produções se espalham como avalanche na internet porque são fáceis, rápidas e baratas de produzir e ainda geram lucros para quem publica, já que as plataformas digitais recompensam visualizações e tempo de engajamento.


A expansão silenciosa do fenômeno

Um levantamento feito pelo jornal The Guardian em julho de 2025 revelou que 9 dos 100 canais de crescimento mais rápido do YouTube já são dominados por conteúdo inteiramente gerado por IA.

Não estamos falando de produções sofisticadas, mas sim de narrativas estranhas, às vezes grotescas, criadas para manter o usuário clicando.

O fenômeno não se limita ao YouTube. Plataformas como o Spotify também recebem músicas de “bandas fantasmas”, grupos que nunca existiram, mas que apresentam faixas produzidas por algoritmos musicais.

Até a tradicional revista de ficção científica Clarkesworld precisou interromper o recebimento de contos em 2024 devido à enxurrada de submissões automatizadas.

Até mesmo a Wikipedia, considerada uma das maiores bibliotecas de conhecimento coletivo, sofre com artigos escritos por IA, sobrecarregando os moderadores que tentam preservar a qualidade e a confiabilidade das informações.


Quando o “AI Slop” vira risco para todos

A questão mais preocupante não é apenas estética, mas social.

Esse tipo de conteúdo já foi usado para manipular opiniões políticas, como no caso do furacão Helene, quando circularam imagens de crianças falsas em situações dramáticas para atacar a gestão do governo norte-americano.

Mesmo quando as pessoas percebem que algo parece “meio errado”, muitos ainda se deixam enganar rapidamente.

Outro impacto é sobre os criadores humanos, que perdem espaço e oportunidades diante de algoritmos que não distinguem qualidade de quantidade.

Artistas, escritores, músicos e produtores independentes veem seu trabalho sendo soterrado por uma enxurrada de produções automáticas.

O resultado? Um ambiente online cada vez mais saturado, em que conteúdos rasos competem em pé de igualdade com obras autênticas, alterando a forma como nos informamos, nos entretemos e até mesmo interpretamos o que é real.


E agora, como lidar com isso?

Ainda que a situação pareça inevitável, algumas plataformas têm tentado frear o problema com sistemas de denúncia e notas comunitárias.

Mas a responsabilidade maior recai sobre cada um de nós: aprender a desconfiar, analisar o que consumimos online e valorizar os criadores reais.

A internet foi criada como um espaço de livre circulação de ideias, mas a ascensão do “AI Slop” mostra que, sem filtros críticos, corremos o risco de viver em um mar de falsificações digitais onde a verdade se perde cada vez mais fundo.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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