Do fungo mortal da tumba de Tutancâmon pode nascer um novo tratamento contra o câncer?

Renê Fraga
6 min de leitura

Imagine um fungo tão perigoso que, por décadas, foi considerado o responsável pela famosa “maldição do faraó”. Agora, essa mesma ameaça microscópica pode se transformar em uma esperança revolucionária no combate ao câncer. Parece ficção científica, mas a ciência acaba de revelar um dos achados mais surpreendentes da medicina moderna – e tudo começou dentro da tumba do jovem faraó Tutancâmon.

A maldição que virou ciência

Em novembro de 1922, o arqueólogo Howard Carter fez uma das descobertas mais fascinantes da história: a tumba intacta do faraó Tutancâmon. Ao ser perguntado se enxergava algo dentro do túmulo, ele respondeu, emocionado: “Sim, coisas maravilhosas!”. Mas a alegria durou pouco. Meses depois, Lord Carnarvon, seu principal financiador, morreu de uma infecção misteriosa. Nos anos seguintes, outros membros da equipe também faleceram em circunstâncias estranhas, alimentando o mito de que uma maldição atingia quem ousasse perturbar o descanso do faraó.

Por muito tempo, acreditou-se que forças sobrenaturais estavam por trás dessas mortes. Mas a ciência moderna encontrou um culpado bem real: o Aspergillus flavus, um fungo tóxico que se escondia nas paredes da tumba.

O assassino invisível das tumbas antigas

O Aspergillus flavus é um fungo comum no solo, em vegetação em decomposição e até em grãos armazenados. Ele é conhecido por sua resistência extrema, capaz de sobreviver por milhares de anos em ambientes selados – como as câmaras de tumbas egípcias.

Quando perturbado, ele libera esporos que podem causar infecções respiratórias graves, especialmente em pessoas com imunidade baixa. Isso explicaria não só as mortes ligadas à tumba de Tutancâmon, mas também casos semelhantes, como o de pesquisadores que adoeceram após entrar na tumba do rei Casimiro IV, na Polônia, nos anos 1970. Em ambos os casos, análises detectaram a presença do A. flavus – e suas toxinas provavelmente foram as verdadeiras responsáveis pelas tragédias.

Do perigo à cura: como um fungo mortal pode combater o câncer

Agora, em uma reviravolta incrível, esse mesmo fungo está no centro de uma descoberta médica promissora. Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia descobriram que o Aspergillus flavus produz moléculas raras com um potencial surpreendente: atacar células cancerígenas.

Essas moléculas pertencem a uma classe chamada RiPPs (peptídeos ribossomalmente sintetizados e pós-traducionalmente modificados). Embora milhares de RiPPs já tenham sido identificados em bactérias, pouquíssimos eram conhecidos em fungos – até agora.

A caça às moléculas anticancerígenas

Encontrar essas moléculas não foi fácil. Os cientistas analisaram várias cepas de Aspergillus até descobrir que o A. flavus era o mais promissor. Após desativar genes específicos do fungo, eles confirmaram que as moléculas desapareciam – prova de que estavam no caminho certo.

O próximo desafio foi purificá-las, já que sua estrutura complexa dificultava o processo. Mas foi justamente essa complexidade que revelou seu potencial único: as moléculas possuíam anéis interligados, uma formação nunca vista antes. Os pesquisadores as batizaram de “asperigimicinas”, em homenagem ao fungo que as produzia.

Testes contra o câncer: os primeiros resultados

Quando testadas em células cancerígenas humanas, as asperigimicinas inibiram o crescimento de tumores em alguns casos. Os cientistas também descobriram como essas moléculas entram nas células doentes – um passo crucial, já que muitas substâncias promissoras falham justamente por não conseguirem penetrar nas células em quantidade suficiente.

Além disso, os pesquisadores suspeitam que as asperigimicinas bloqueiam a divisão celular descontrolada, típica do câncer, ao interferir nos microtúbulos (estruturas internas essenciais para a multiplicação das células). O melhor? Essa ação parece ser específica para células cancerígenas, reduzindo o risco de efeitos colaterais graves.

O futuro: uma nova era de medicamentos vindos dos fungos?

A descoberta das asperigimicinas é só o começo. Os cientistas já identificaram genes similares em outros fungos, sugerindo que muitas outras moléculas anticancerígenas podem estar escondidas no reino fungal.

E a história não para por aí. Fungos já nos presentearam com revolucionários medicamentos, como a penicilina, que transformou a medicina no século XX. Quem diria que o mesmo fungo temido como “maldição dos faraós” poderia, um dia, se tornar um aliado na luta contra o câncer?

Da maldição à salvação: o poder surpreendente da natureza

Essa descoberta é um lembrete fascinante de como a natureza pode ser ao mesmo tempo perigosa e curativa. O que antes era visto como uma ameaça mortal agora pode se tornar uma esperança para milhões de pacientes.

E você, curioso, o que acha? Será que outros segredos medicinais estão escondidos em lugares inesperados, como tumbas antigas ou florestas desconhecidas? Uma coisa é certa: a ciência não para de nos surpreender, e o futuro da medicina pode estar bem mais perto do que imaginamos – até mesmo em um fungo de 3.000 anos.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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