Principais destaques
- A antiga busca alquímica para transformar metais em ouro tem base científica moderna
- A física nuclear já conseguiu produzir ouro em laboratório
- O processo é extremamente caro e inviável do ponto de vista econômico
Durante séculos, a ideia de transformar metais comuns em ouro fascinou alquimistas e governantes. O sonho da chamada crisopoeia prometia riqueza instantânea e até elevação espiritual.
Mas afinal, a ciência moderna confirma que isso é possível?
A resposta é sim. Outros metais podem ser transformados em ouro. Porém, o caminho está muito longe das fórmulas místicas da Idade Média e passa diretamente pela física nuclear.
A visão dos alquimistas e o nascimento do mito
A crença na transmutação surgiu na Grécia Antiga, com pensadores como Zósimo de Panópolis, que associava a transformação do metal à purificação da alma. Já na Europa medieval, a motivação tornou-se mais prática: enriquecer.
Na época, acreditava-se que os metais eram compostos por três elementos fundamentais, mercúrio, enxofre e sal. Bastaria reorganizar esses componentes e eliminar impurezas para que qualquer metal amadurecesse até se tornar ouro. A chamada pedra filosofal seria o catalisador desse processo.
A ideia fazia sentido dentro das teorias científicas daquele período. Somente com o avanço da química e da física, entre os séculos XVII e XVIII, a alquimia perdeu espaço e passou a ser vista como pseudociência.
A descoberta da física nuclear
Com o desenvolvimento da física atômica, surgiu uma nova compreensão sobre o que define um elemento químico. O ouro possui 79 prótons em seu núcleo. Já o chumbo, por exemplo, tem 82. Em teoria, se três prótons forem removidos do chumbo, ele se torna ouro.
O desafio é que o núcleo atômico é mantido unido por forças extremamente intensas, chamadas de força nuclear forte. Alterar essa estrutura exige quantidades enormes de energia.
Em 1941, cientistas da Universidade de Harvard conseguiram pela primeira vez transformar mercúrio em ouro utilizando um acelerador de partículas. Décadas depois, o químico vencedor do Nobel Glenn Seaborg repetiu o feito no Lawrence Berkeley National Laboratory, convertendo átomos de bismuto em ouro por meio de colisões nucleares.
Mais recentemente, pesquisadores do CERN, na Suíça, e do Large Hadron Collider detectaram pequenas quantidades de ouro formadas durante experimentos com colisões de íons de chumbo em altíssima velocidade. O fenômeno ocorre quando campos eletromagnéticos extremamente intensos removem prótons dos núcleos.
O resultado impressiona: trilionésimos de grama de ouro podem ser criados. Mas a quantidade é microscópica.
Por que ninguém ficou rico com isso?
Apesar de a ciência ter realizado o antigo sonho alquímico, o processo está longe de ser lucrativo. Construir e manter um acelerador de partículas custa bilhões de dólares. A quantidade de ouro produzida é insignificante diante desse investimento.
Estima-se que experimentos realizados na década de 1980 tenham custado trilhões de vezes mais do que o valor do ouro gerado. Além disso, os átomos produzidos muitas vezes são instáveis e radioativos, desaparecendo rapidamente.
Ou seja, a transmutação é possível, mas apenas como um subproduto científico, não como um negócio viável.
A ironia é evidente. Os alquimistas estavam certos quanto à possibilidade, mas completamente errados quanto ao método. O ouro pode nascer de outro metal, mas apenas dentro de laboratórios de alta energia e a um custo astronômico.
