Moléculas das bactérias intestinais podem controlar o crescimento de células humanas

Renê Fraga
4 min de leitura

Principais destaques:

  • Cientistas descobriram que moléculas produzidas por bactérias intestinais podem influenciar diretamente o crescimento de células humanas.
  • Uma dessas moléculas, chamada preQ1, pode reduzir o desenvolvimento de tumores — um possível novo caminho para terapias anticâncer.
  • A descoberta revela um elo impressionante entre o microbioma intestinal e o controle do sistema imunológico e do crescimento celular.

A química invisível dentro do intestino

Quem imaginaria que, bem no interior do nosso intestino, bactérias microscópicas estariam tomando decisões sobre o crescimento das nossas próprias células?

Uma equipe da Universidade de Chicago descobriu algo surpreendente: duas moléculas produzidas por bactérias intestinais competem entre si e, nesse processo, conseguem acelerar ou frear o crescimento de células de mamíferos — inclusive as humanas.

O estudo, publicado na prestigiada revista Nature Cell Biology, foi liderado pelo professor Tao Pan. Ele e sua equipe analisaram duas moléculas chamadas queuina e preQ1 (pré-queuosina 1). Enquanto a queuina estimula a multiplicação celular, a preQ1 faz o oposto, bloqueando a proliferação ao competir pela mesma maquinaria celular que constrói proteínas.

O mais impressionante? Quando os cientistas injetaram preQ1 em camundongos com tumores, o crescimento dos tumores diminuiu de forma significativa, sugerindo que essa molécula bacteriana pode ser um novo e promissor candidato para terapias contra o câncer.


O impacto no sistema imunológico

Entre todos os tipos de células estudadas, um grupo se destacou: as células dendríticas, verdadeiros “chefes” da defesa imunológica que iniciam respostas contra agentes invasores. Pan destaca: “O efeito mais forte do preQ1 que observamos foi nas células dendríticas — até pequenas quantidades foram suficientes para interromper completamente o seu crescimento.”

Essa descoberta pode revolucionar a forma como tratamos tanto o câncer quanto doenças autoimunes. Nos testes em laboratório, o preQ1 reduziu drasticamente a multiplicação celular, mas esse efeito pôde ser revertido quando os cientistas adicionaram queuina, restaurando o crescimento normal. Isso mostra como o equilíbrio entre as duas moléculas pode funcionar como um botão de liga e desliga para as células do corpo.


O segredo por trás do mecanismo molecular

Para entender como isso acontece, os pesquisadores foram até o núcleo da biologia celular. As duas moléculas — preQ1 e queuina — competem pelo mesmo complexo enzimático QTRT1/QTRT2, responsável por modificar os RNAs de transferência (tRNAs), pequenos tradutores que leem o código genético e constroem proteínas.

Mas quando o preQ1 vence essa disputa, os tRNAs produzidos ficam instáveis e defeituosos. O sistema celular então aciona uma “faxina” — conduzida pela enzima IRE1 — que elimina os tRNAs imperfeitos, retardando assim o crescimento celular.

O momento dessa disputa também é fascinante. Depois de eventos como uma renovação da flora intestinal, o preQ1 surge primeiro, seguido mais tarde pela queuina, que exige etapas extras para entrar na corrente sanguínea. Essa ordem pode ter um papel essencial no equilíbrio entre o controle do crescimento celular e a resposta do sistema imunológico.

Como observa Tao Pan, “é impressionante ver como duas moléculas bacterianas conseguem reprogramar processos fundamentais dentro de nossas células e ditar seu comportamento.”

Essa descoberta abre portas para novas formas de tratar o câncer, talvez por meio de dietas que influenciem o microbioma ou do uso de metabólitos bacterianos para regular o crescimento celular. O que antes era apenas o “universo invisível” do intestino pode se tornar um novo aliado na medicina moderna — mostrando que, afinal, somos muito mais conectados às nossas bactérias do que imaginávamos.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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