Neandertais comiam só carne? Novas evidências revelam uma dieta muito mais variada

Renê Fraga
4 min de leitura

Principais destaques

  • Estudos isotópicos confirmam que os neandertais eram grandes consumidores de carne e estavam no topo da cadeia alimentar.
  • Evidências arqueológicas mostram que eles também comiam plantas como lentilhas, pistaches, ervilhas selvagens e até raízes.
  • A combinação de gordura, medula óssea e vegetais era essencial para evitar problemas causados por excesso de proteína.

Durante décadas, a imagem dos Homo neanderthalensis ficou associada a caçadores que viviam basicamente de carne. A figura clássica é a de um humano pré-histórico segurando um grande pedaço de animal recém-abatido. Mas pesquisas recentes mostram que essa visão é simplista demais.

Embora a carne tivesse papel central na alimentação, os neandertais não viviam exclusivamente dela. Evidências químicas e arqueológicas indicam que eles sabiam aproveitar outras partes dos animais e também recorriam a diferentes tipos de plantas, adaptando a dieta ao ambiente e às estações do ano.

Caçadores no topo da cadeia alimentar

Análises de isótopos encontrados em ossos fósseis revelam que os neandertais apresentavam níveis muito altos de nitrogênio 15, um marcador típico de predadores que consomem grandes quantidades de carne. Em alguns casos, esses níveis eram até superiores aos de carnívoros como lobos e hienas pré-históricas.

Isso levou cientistas a classificá-los como hipercarnívoros, ou seja, predadores que dependiam fortemente de proteína animal. Em regiões como a atual Espanha e Alemanha, há indícios de que caçavam grandes animais, incluindo mamutes e outros herbívoros de grande porte.

No entanto, pesquisadores alertam que níveis elevados de nitrogênio podem estar ligados também ao tipo de presa consumida. Mamutes, por exemplo, apresentavam valores elevados desse isótopo, o que influenciaria os resultados. Outra hipótese recente sugere que o consumo de carne em decomposição, rica em larvas, poderia aumentar ainda mais esses índices.

O papel vital da gordura

Apesar da forte presença de carne na dieta, sobreviver apenas de proteína seria perigoso. Em humanos modernos, uma alimentação com excesso de proteína e pouca gordura ou carboidrato pode levar à chamada intoxicação por proteína, conhecida popularmente como fome do coelho, uma condição potencialmente fatal.

Para evitar isso, os neandertais buscavam fontes ricas em gordura. Evidências arqueológicas mostram que eles quebravam ossos sistematicamente para extrair a medula óssea, extremamente nutritiva. Cérebros de animais também eram uma fonte importante de lipídios.

Quando consumiam o animal inteiro, incluindo gordura e medula, a dieta baseada em recursos animais se tornava viável do ponto de vista energético.

Plantas também faziam parte do cardápio

A grande virada nas pesquisas veio com a descoberta de restos vegetais em cavernas e até em placas dentárias fossilizadas. Vestígios encontrados no atual território de Israel indicam o consumo de leguminosas, bolotas e pistaches. Já em áreas como Grécia e Iraque, há sinais de que eles deixavam lentilhas e grãos de molho, além de triturá-los, possivelmente para reduzir o sabor amargo.

Na região de Gibraltar, arqueólogos encontraram restos queimados de azeitonas selvagens e pinhões. Em cavernas da Espanha, análises químicas revelaram que algumas plantas, como milefólio e camomila, podem ter sido usadas até com fins medicinais.

Em áreas mais quentes, a variedade provavelmente era ainda maior, incluindo sementes, tubérculos ricos em amido e até frutas como tâmaras.

Os dados mais recentes mostram que os neandertais eram altamente adaptáveis. Embora fossem caçadores habilidosos e dependessem bastante da carne, sua alimentação variava conforme o ambiente. Em vez de uma dieta monotemática, eles demonstraram flexibilidade e conhecimento profundo dos recursos naturais disponíveis.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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