Principais destaques
- Novo composto experimental promete tratar complicações do diabetes sem focar apenas no açúcar no sangue.
- A molécula RAGE406R atua bloqueando a inflamação e o dano tecidual em nível celular.
- Resultados em camundongos mostraram cicatrização mais rápida e menos inflamação nas feridas.
Imagine um medicamento que não luta apenas contra o açúcar alto no sangue, mas vai direto ao cerne do problema: a inflamação e o dano tecidual que o diabetes provoca silenciosamente ao longo do tempo.
Essa é a proposta empolgante de um estudo recente conduzido por pesquisadores da NYU Langone Health, publicado no dia 14 de novembro na revista Cell Chemical Biology.
O composto experimental, chamado RAGE406R, foi desenvolvido para agir de uma forma totalmente diferente das terapias tradicionais.
Ele bloqueia reações inflamatórias que, segundo os cientistas, estão por trás de muitas das complicações do diabetes, desde a dificuldade de cicatrização até doenças cardíacas e renais.
Como o composto atua: bloqueando a inflamação na fonte
No corpo humano, o diabetes pode causar o acúmulo de substâncias nocivas chamadas produtos finais de glicação avançada. Elas estimulam a ligação entre duas proteínas, RAGE (um receptor na superfície celular) e DIAPH1 (uma proteína dentro das células).
Essa dupla forma uma espécie de “alarme inflamado” que mantém o corpo em constante estado de inflamação, algo extremamente prejudicial a longo prazo.
O RAGE406R consegue interromper essa interação perigosa. Ao impedir que as duas proteínas se conectem, ele bloqueia o início de uma cascata inflamatória.
Em testes com células humanas de pessoas com diabetes tipo 1, o composto reduziu significativamente os níveis de CCL2, uma molécula importante nos processos inflamatórios.
E os resultados em modelos animais foram igualmente animadores: em feridas de camundongos diabéticos, o tratamento com RAGE406R acelerou a cicatrização e reduziu a inflamação local, indicando um grande potencial terapêutico para humanos.
A pesquisadora Dra. Ann Marie Schmidt, endocrinologista da Escola de Medicina NYU Grossman e uma das líderes do estudo, resumiu bem o impacto da descoberta:
“Até agora, não existiam tratamentos que atacassem a raiz das complicações do diabetes. O RAGE406R faz isso ao bloquear a ação inflamatória dentro das células — não apenas controlando a glicose.”
Da triagem de 58 mil moléculas a um candidato promissor e seguro
Chegar até o RAGE406R foi um percurso digno de um laboratório de alta tecnologia.
A equipe de Schmidt testou mais de 58 mil moléculas até encontrar substâncias com potencial para interromper a ligação entre RAGE e DIAPH1. O composto anterior, chamado RAGE229, apesar de eficaz, apresentou riscos de alterar o DNA, um grande alerta de segurança.
A nova versão, RAGE406R, foi refinada para eliminar esses riscos, mantendo a eficácia. A colaboração entre a NYU e a Universidade Estadual de Nova York em Albany, liderada pelo Dr. Alexander Shekhtman, usou técnicas avançadas de ressonância magnética nuclear e fluorescência para entender exatamente como a molécula se liga a seus alvos e o que a torna segura.
Segundo a equipe, se o medicamento se mostrar eficaz em humanos, o ideal é que seja administrado logo no início do diagnóstico, em conjunto com o controle tradicional da glicose. Isso poderia evitar que as moléculas perigosas, os produtos de glicação, se acumulem e causem danos irreversíveis.
O mais promissor é que o RAGE406R pode beneficiar tanto pessoas com diabetes tipo 1 quanto tipo 2, preenchendo uma lacuna importante nos cuidados atuais, que costumam focar mais no segundo tipo da doença.
