O perigoso “buraco de fechadura” espacial que pode trazer asteroides de volta à Terra

Renê Fraga
4 min de leitura

✨ Destaques rápidos:

  • Asteroides podem ser desviados, mas escolher o ponto errado pode colocá-los novamente em rota de colisão com a Terra.
  • O chamado “buraco de fechadura gravitacional” é uma armadilha cósmica que pode transformar uma defesa em um novo perigo.
  • Cientistas já criam mapas de probabilidade que indicam os locais mais seguros para impactar a superfície de um asteroide.

Cuidado com a armadilha invisível: o “buraco de fechadura gravitacional”

Desviar um asteroide parece coisa de filme de ficção científica, mas essa já é uma missão espacial real.

Em 2022, a NASA realizou o experimento DART, atingindo o asteroide Dimorphos para provar que seria possível mudar a trajetória de um corpo celeste perigoso.

O impacto foi bem-sucedido e demonstrou que a humanidade tem, pelo menos, uma ferramenta contra ameaças vindas do espaço.

Mas a situação não é tão simples assim.

Segundo uma nova pesquisa apresentada no encontro EPSC-DPS2025, em Helsinque, escolher o ponto errado para acertar um asteroide pode acabar gerando o efeito oposto: colocar o corpo celeste em um caminho de retorno à Terra por meio de um curioso fenômeno chamado buraco de fechadura gravitacional.


O que é o “buraco de fechadura gravitacional”?

Imagine que o espaço seja cheio de portas invisíveis. Algumas dessas “portas” são regiões minúsculas onde a gravidade de um planeta pode alterar a trajetória de um asteroide.

Se ele passar justamente por uma dessas zonas após ser desviado, pode acabar retornando anos ou séculos depois em rota de colisão com a Terra.

É como se tivéssemos empurrado a ameaça para dentro de um atalho direto contra nós mesmos.

O pesquisador Rahil Makadia, da NASA, compara o risco a uma segunda chance nada agradável: “mesmo que afastemos um asteroide da Terra, não podemos permitir que ele cruze um desses buracos de fechadura, ou estaremos diante do mesmo perigo mais adiante”.


Como a ciência tenta resolver esse risco

Para evitar esse problema, a equipe de Makadia desenvolveu uma técnica para criar mapas de probabilidade: representações da superfície de um asteroide que mostram quais pontos são mais seguros para receber o impacto de uma espaçonave.

Esses mapas levam em conta fatores como:

  • o formato irregular do asteroide;
  • sua rotação;
  • montanhas, crateras e vales em sua superfície;
  • e até sua massa.

Com essas informações, os cientistas conseguem calcular se um impacto em determinado local aumentaria ou diminuiria as chances do asteroide cruzar um buraco gravitacional perigoso.

A boa notícia é que, mesmo sem enviar missões tripuladas, parte dessa análise pode ser feita a partir de observações feitas diretamente da Terra, embora, claro, missões de encontro direto com o asteroide gerem resultados muito mais precisos.


A defesa da Terra a longo prazo

A missão europeia Hera, prevista para chegar ao sistema Didymos–Dimorphos em 2026, ajudará a confirmar e refinar essa técnica.

O objetivo é que, no futuro, possamos não apenas desviar asteroides perigosos, mas garantir que eles não retornem por um caminho ainda mais ameaçador.

Em outras palavras, salvar a Terra de um impacto cósmico não é apenas questão de força bruta, mas também de estratégia e precisão cirúrgica.

Encontrar o ponto certo para “cutucar” um asteroide pode ser a diferença entre proteção e desastre.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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