Principais destaques:
- Novo estudo revela que algumas pessoas defendem informações falsas como forma de afirmar força e independência.
- Pesquisadores mostram que, para certos grupos, acreditar em desinformação é um ato simbólico – não racional.
- Essa mentalidade está associada a atitudes autoritárias e à busca por “vitórias psicológicas” sobre os outros.
Você já se perguntou por que tanta gente insiste em acreditar em informações falsas, mesmo quando as provas mostram o contrário?
Um recente estudo publicado no Journal of Social Psychology mergulhou fundo nessa questão – e o que descobriu é, ao mesmo tempo, curioso e perturbador.
Os pesquisadores Randy Stein e Abraham Rutchick, especialistas em psicologia social, analisaram o comportamento de mais de 5 mil pessoas em oito países durante a pandemia.
O objetivo era entender por que algumas delas acreditavam em teorias infundadas, como a que dizia que “redes 5G espalhavam o vírus da COVID-19”. E a resposta, ao que tudo indica, não tem tanto a ver com ignorância e sim com identidade.
Quando “resistir” vira mais importante que ter razão
De acordo com o estudo, a chave para esse tipo de comportamento está na “força simbólica” – uma espécie de impulso psicológico para mostrar que ninguém pode “mandar” em você.
Pessoas que veem o mundo sob essa ótica interpretam as medidas de prevenção, como máscaras ou vacinas, não como questões de saúde, mas como testes de força pessoal.
Os cientistas criaram uma escala que incluía afirmações como:
- “Seguir orientações de prevenção é o mesmo que recuar.”
- “A cobertura constante da pandemia na mídia mostra que estamos perdendo.”
Quem concordava com frases assim tendia a acreditar mais em desinformação. Para esses indivíduos, defender algo sabidamente falso não é apenas um erro, é uma forma de mostrar independência.
Mesmo que a afirmação seja absurda, insistir nela representa “não se submeter” aos outros. É como se dizer o contrário do óbvio fosse, em si, uma forma de poder.
Do COVID às criptomoedas: quando o símbolo domina os fatos
Essa forma de pensar não aparece só em questões de saúde. Em outro estudo, os mesmos pesquisadores analisaram atitudes diante das criptomoedas.
Quem via o investimento em cripto como uma forma de “romper com o sistema tradicional” também era mais propenso a acreditar em teorias conspiratórias, como a de que o governo esconde contatos com alienígenas.
Essas pessoas enxergam o mundo como um campo de batalha simbólico, em que vencer significa manter o controle sobre o próprio pensamento, mesmo que isso envolva negar a realidade.
E esse padrão, segundo Stein e Rutchick, se conecta diretamente com visões autoritárias e admiração por líderes que fazem uso da desinformação para parecerem “fortes”.
A verdade deixa de ser o ponto central
Mais do que simples desentendimento, o estudo mostra que, para quem pensa de forma simbólica, a verdade literal perde o valor. O importante é a mensagem: “eu não mudo de ideia, custe o que custar”.
Esse comportamento explica por que o desmentido de uma fake news, ou o fact-checking, às vezes parece ter efeito oposto ao desejado.
Ao corrigir o erro, os verificadores acabam sendo vistos como os “fracos”, os que “reagem”. Para quem pensa simbolicamente, resistir à correção — mesmo diante de provas — é sair vencedor.
Em um mundo em que a afirmação mais absurda pode virar um símbolo de autenticidade, compreender essa lógica é essencial.
Pois, no fim das contas, combater a desinformação não é apenas sobre mostrar fatos, é também sobre entender as emoções e as identidades que alimentam essas crenças.
