Por que escorregamos no gelo? Cientistas derrubam uma crença de quase 200 anos

Renê Fraga
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❄ Principais destaques:

  • Não é a pressão nem o atrito que tornam o gelo escorregadio, mas sim interações invisíveis entre moléculas.
  • Pesquisadores descobriram que até em temperaturas extremamente baixas, próximas ao zero absoluto, ainda se forma uma fina camada líquida no gelo.
  • Essa descoberta muda a forma como entendemos fenômenos cotidianos, como escorregar na calçada ou deslizar de esqui.

Por mais de um século, aprendemos na escola que o gelo se torna escorregadio porque a pressão do nosso peso ou o atrito do movimento faz com que ele derreta, criando uma fina camada de água.

Mas um novo estudo da Universidade de Saarland, na Alemanha, acaba de mostrar que essa explicação clássica está errada.

A verdadeira razão pela qual escorregamos no gelo não tem a ver com pressão ou calor, mas com algo muito mais sutil: a interação entre as cargas elétricas microscópicas das moléculas — os chamados dipolos.


O que realmente acontece quando pisamos no gelo

O gelo, em temperaturas abaixo de 0 °C, é formado por moléculas de água organizadas em uma estrutura cristalina perfeita, como um quebra-cabeça bem montado.

Quando colocamos o pé sobre ele, não é a força do peso que quebra essa ordem, mas sim a forma como os dipolos da sola do sapato interagem com os dipolos do gelo.

Essas interações criam uma espécie de “bagunça” na superfície, desorganizando a estrutura cristalina. O resultado?

Uma camada extremamente fina e escorregadia, que se comporta como líquido, mesmo que a temperatura esteja muito abaixo de zero.


O mito do frio extremo e o esqui

Outro mito derrubado pela pesquisa é a ideia de que, em temperaturas abaixo de –40 °C, seria impossível esquiar porque não haveria formação dessa película líquida.

O estudo mostrou que isso não é verdade: os dipolos continuam atuando mesmo em condições extremas, e a fina camada ainda se forma.

A diferença é que, em temperaturas tão baixas, essa película fica muito mais viscosa — mais grossa que o mel. Tecnicamente, ela ainda existe, mas não teria a fluidez necessária para permitir um bom deslizamento.

Ou seja, esquiar seria praticamente inviável, mas não pela ausência da camada líquida, e sim pela sua consistência.


Por que essa descoberta importa?

Para quem já levou um tombo no inverno, talvez não faça diferença se a culpa foi da pressão, do atrito ou dos dipolos. Mas, para a ciência, essa mudança de perspectiva é enorme.

A explicação tradicional, proposta no século XIX por James Thompson (irmão de Lord Kelvin), dominou os livros de física por quase 200 anos.

Agora, com simulações de computador e novos modelos, os cientistas mostram que a realidade é bem mais complexa e fascinante.

Essa descoberta não apenas corrige um equívoco histórico, mas também abre portas para novas pesquisas sobre superfícies escorregadias, atrito e até mesmo tecnologias que poderiam se inspirar nesse fenômeno natural.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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