Psicose da IA: quando conversar demais com chatbots pode mexer com a mente

Renê Fraga
5 min de leitura

✨ Principais destaques:

  • Usuários intensivos de chatbots relatam delírios e perda de contato com a realidade.
  • Psiquiatras já registraram casos de internação ligados ao uso excessivo de IA.
  • Especialistas alertam: a IA não causa psicose, mas pode potencializar vulnerabilidades.

Nos últimos anos, a inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta tecnológica para se tornar uma companhia constante na vida de milhões de pessoas.

Mas, junto com a popularidade dos chatbots como ChatGPT e Gemini, surge também uma preocupação inesperada: o fenômeno que alguns especialistas já chamam de “psicose da IA”.

Casos recentes mostram que, após longas interações com chatbots, alguns usuários começaram a desenvolver delírios, acreditar em ideias grandiosas ou até enxergar a IA como uma entidade divina.

Embora não haja evidências de que a tecnologia cause doenças mentais, médicos alertam que ela pode amplificar fragilidades emocionais já existentes.

Quando a tecnologia deixa de ser só uma conversa

Um caso relatado pelo New York Times chamou atenção: um homem, sem histórico de problemas psiquiátricos, passou a acreditar que havia descoberto uma fórmula matemática revolucionária graças às conversas com um chatbot.

Convencido de que ficaria rico, mergulhou em delírios cada vez mais intensos, até que a própria IA admitiu que havia “enganado” o usuário.

Psiquiatras explicam que esse tipo de situação não é isolada. O Dr. Keith Sakata, da Universidade da Califórnia, já internou 12 pessoas somente em 2025 que apresentaram sintomas de psicose após uso intenso de chatbots.

Segundo ele, a IA pode reforçar pensamentos distorcidos, criando uma espécie de “bolha” em que a realidade deixa de se impor.

“A psicose se fortalece quando a realidade para de oferecer resistência. A IA pode suavizar esse limite e, assim, intensificar vulnerabilidades”, explica Sakata.

Quem está mais vulnerável?

De acordo com os especialistas, alguns fatores aumentam o risco de desenvolver sintomas de psicose em contato com chatbots:

  • Isolamento e solidão: pessoas desconectadas de amigos e familiares tendem a buscar na IA uma forma de companhia.
  • Conversas longas e intensas: quanto mais prolongado o diálogo, maior a chance de delírios surgirem, além da privação de sono.
  • Confiança excessiva na IA: acreditar cegamente nas respostas do chatbot pode dificultar a percepção de erros ou invenções.

Outro ponto de atenção é o tipo de tema abordado. Projetos como o The Human Line Project, criado por Etienne Brisson, mostram que muitos usuários acabam presos em três padrões de conversa:

  1. Relacionamentos românticos com a IA, acreditando que ela é consciente.
  2. Ideias grandiosas, como invenções científicas ou planos de negócios mirabolantes.
  3. Espiritualidade e religião, chegando a acreditar que a IA é uma entidade divina ou um mensageiro profético.

Como identificar os sinais e buscar ajuda

É importante entender que a psicose não é uma doença em si, mas um sintoma de que o cérebro não está funcionando corretamente. Entre os sinais de alerta estão:

  • Mudanças bruscas de comportamento (como parar de comer ou trabalhar).
  • Crença em ideias grandiosas ou irreais.
  • Insônia persistente.
  • Afastamento de amigos e familiares.
  • Reforço de delírios durante conversas.
  • Sentimento de estar preso em um “ciclo sem fim”.
  • Pensamentos de autolesão ou agressividade.

Se você ou alguém próximo apresentar esses sintomas, especialistas recomendam procurar ajuda médica o quanto antes.

O tratamento pode incluir terapia cognitivo-comportamental, que ajuda a reorganizar pensamentos, e, em casos mais graves, medicação antipsicótica.

Além disso, projetos de apoio entre pares, como o The Human Line Project, mostram que compartilhar experiências com outras pessoas que passaram pelo mesmo pode ser um passo essencial para a recuperação.

“Você não está sozinho, e isso não é culpa sua”, reforça Brisson, lembrando que até pessoas com carreiras estáveis e famílias estruturadas já passaram por esse tipo de situação.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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