Trigo que produz seu próprio fertilizante? A ciência acaba de tornar isso possível

Renê Fraga
4 min de leitura

🌾 Principais destaques:

  • Cientistas da UC Davis criaram trigo capaz de estimular bactérias do solo a produzir o próprio fertilizante.
  • A inovação pode reduzir bilhões em custos para agricultores e diminuir a poluição ambiental.
  • A descoberta pode transformar a agricultura em países em desenvolvimento, ajudando na segurança alimentar.

Uma revolução no campo

Imagine plantar trigo sem precisar gastar fortunas em fertilizantes químicos e ainda ajudar o meio ambiente. Parece ficção científica, mas é realidade.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia, Davis, liderados pelo professor Eduardo Blumwald, conseguiram modificar geneticamente o trigo para que ele estimule bactérias do solo a produzir o nitrogênio de que a planta precisa para crescer.

Esse processo é chamado de fixação biológica de nitrogênio, algo que já acontece naturalmente em leguminosas como feijão e ervilha, mas nunca em cereais como o trigo.

Agora, graças a uma combinação de biotecnologia e observação da própria natureza, esse “supertrigo” pode mudar a forma como cultivamos alimentos no mundo todo.

O segredo está nas bactérias e em uma molécula especial

Normalmente, o trigo não consegue abrigar bactérias fixadoras de nitrogênio, porque não possui estruturas chamadas nódulos radiculares, presentes em leguminosas.

Por isso, agricultores dependem de fertilizantes químicos — que, além de caros, poluem rios, lagos e até a atmosfera.A equipe de Blumwald decidiu seguir outro caminho: em vez de tentar criar nódulos artificiais, eles investigaram 2.800 substâncias naturais produzidas pelas plantas.

Descobriram que algumas delas estimulam bactérias a formar biofilmes, uma espécie de camada protetora que cria o ambiente perfeito para a enzima nitrogenase trabalhar.

Essa enzima é a responsável por transformar o nitrogênio do ar em uma forma que as plantas conseguem absorver.

Com a ajuda da ferramenta de edição genética CRISPR, os cientistas fizeram o trigo produzir mais de uma dessas substâncias: a apigenina, um tipo de flavonoide. O

excesso de apigenina liberado pelas raízes ativa as bactérias do solo, que passam a fixar nitrogênio de forma eficiente. Resultado? O trigo cresce mais forte, mesmo com pouco fertilizante.

Impacto global: economia e sustentabilidade

O potencial dessa descoberta é gigantesco. Só nos Estados Unidos, agricultores gastaram cerca de 36 bilhões de dólares em fertilizantes em 2023.

Se apenas 10% desse gasto fosse economizado com o novo trigo, seriam mais de 1 bilhão de dólares poupados por ano.Além da economia, há o impacto ambiental: hoje, apenas 30% a 50% do nitrogênio aplicado no solo é realmente absorvido pelas plantas.

O restante escorre para rios e mares, criando zonas mortas sem oxigênio, ou se transforma em óxido nitroso, um gás de efeito estufa muito mais potente que o CO₂.

Em países em desenvolvimento, como muitos na África, onde pequenos agricultores não têm acesso a fertilizantes, essa tecnologia pode ser ainda mais transformadora.

Imagine plantar trigo que “se alimenta sozinho” e garante colheitas mais abundantes sem custo extra. É uma verdadeira revolução para a segurança alimentar global.


🔬 O trabalho ainda está em fase de testes, mas já existe um pedido de patente em andamento. A equipe também estuda aplicar a mesma técnica em outros cereais, como o arroz.

Se der certo, podemos estar diante de uma das maiores mudanças na agricultura desde a invenção dos fertilizantes químicos.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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