Augusto Cury dispara nas pesquisas e vira a surpresa da eleição presidencial de 2026

Renê Fraga
15 min de leitura

PRINCIPAIS DESTAQUES

  • Augusto Cury saltou de 2% para 11% em apenas uma semana na pesquisa BTG/Nexus e assumiu a terceira colocação no primeiro turno.
  • O escritor também teve uma explosão nas redes sociais, conquistando quase 2,5 milhões de novos seguidores no Instagram em uma semana.
  • Apesar do crescimento impressionante, Cury ainda está atrás de Lula e Flávio Bolsonaro e terá de provar que o fenômeno das últimas semanas consegue se transformar em votos nas urnas.

O nome de Augusto Cury deixou de ser uma presença quase periférica na disputa presidencial para se transformar, em poucos dias, em uma das principais surpresas das eleições de 2026. O escritor e psiquiatra, candidato pelo Avante, apareceu com 11% das intenções de voto na pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira, 31 de agosto.

O número chama atenção principalmente pela velocidade da mudança. No levantamento anterior da mesma pesquisa, divulgado em 24 de agosto, Cury tinha apenas 2%. Em uma semana, portanto, avançou nove pontos percentuais e passou a ocupar isoladamente a terceira posição no cenário de primeiro turno.

O resultado o coloca atrás apenas de Lula e Flávio Bolsonaro, que continuam concentrando a maior parte das intenções de voto. No cenário sem Pablo Marçal, Lula aparece com 39% e Flávio com 33%. Na simulação que inclui Marçal, os percentuais ficam em 37% para Lula e 31% para Flávio, enquanto Cury permanece com 11%.

É uma mudança importante para uma candidatura que, até poucas semanas atrás, era pouco considerada nas análises sobre a corrida presidencial.

De escritor conhecido a candidato que passou a chamar atenção do eleitor

Augusto Cury, 67 anos, não construiu sua trajetória na política. Seu nome se tornou conhecido no Brasil principalmente por meio dos livros, palestras e trabalhos relacionados a comportamento, emoções, educação e desenvolvimento pessoal.

O escritor afirma ter vendido mais de 48 milhões de livros ao longo da carreira, o que ajuda a entender um dos elementos mais particulares de sua campanha: Cury já possuía uma enorme audiência antes de entrar na disputa eleitoral.

Sua candidatura tenta transformar essa notoriedade em capital político.

Cury se apresenta como uma alternativa à polarização entre o campo ligado ao presidente Lula e o grupo político associado ao bolsonarismo. A campanha procura vender a imagem de alguém que não pertence à política tradicional e que poderia reunir diferentes setores da sociedade.

Essa estratégia ganhou força justamente quando o eleitorado passou a vê-lo não apenas como escritor, mas como candidato.

O primeiro debate presidencial teve papel importante nessa transformação. Depois da participação de Cury no debate da Band, vídeos com trechos de suas falas começaram a circular intensamente nas redes sociais. Segundo dados citados pela CNN Brasil, as buscas pelo nome do candidato no Google chegaram a ficar cerca de 900% acima do volume registrado anteriormente.

O fenômeno foi ainda mais evidente no Instagram.

Entre segunda e sexta-feira da semana passada, Cury ganhou quase 2,5 milhões de seguidores, passando da casa dos 8,4 milhões para aproximadamente 10,8 milhões. No mesmo período, o crescimento de Lula e Flávio Bolsonaro foi muito menor.

+2,5 milhões

novos seguidores conquistados por Cury em aproximadamente uma semana, segundo levantamento citado pelo UOL.

A velocidade desse crescimento transformou as redes sociais em uma das peças centrais da candidatura.

O que está por trás da explosão nas pesquisas?

O crescimento de Cury não aparece somente em um levantamento.

Na pesquisa Atlas/Intel, realizada entre 25 e 30 de agosto, ele marcou 7,8% das intenções de voto. Nesse cenário, ficou numericamente à frente de outros candidatos e tecnicamente empatado com Renan Santos, que registrou 7,6%.

O resultado também representa uma evolução significativa em relação ao desempenho anterior de Cury nessa pesquisa.

Já o levantamento BTG/Nexus mostra uma curva ainda mais impressionante. Cury saiu de 1% no começo de agosto, passou para 2% na rodada seguinte e chegou agora aos 11%.

A trajetória recente na BTG/Nexus

1%
início de agosto

2%
24 de agosto

11%
31 de agosto

Essa velocidade, entretanto, exige cautela na interpretação.

Uma pesquisa eleitoral representa um retrato do momento em que as entrevistas foram realizadas. O salto de Cury é real dentro dos levantamentos publicados, mas ainda não significa que ele tenha consolidado uma posição definitiva na disputa.

Além disso, as pesquisas utilizam metodologias diferentes. Por isso, não é correto simplesmente somar ou comparar diretamente os percentuais da BTG/Nexus e da Atlas/Intel como se fossem medições idênticas.

O que os levantamentos mostram, porém, é uma tendência que merece atenção: Cury passou a aparecer com força em mais de uma pesquisa e deixou de ser um candidato de baixa visibilidade eleitoral.

Outro dado ajuda a entender de onde podem estar vindo esses votos.

Na pesquisa BTG/Nexus, Cury aparece com desempenho particularmente forte entre os eleitores mais jovens. Entre pessoas de 16 a 24 anos, chegou a 22%, segundo levantamento divulgado pelo UOL. O candidato também recebe mais apoio entre antigos eleitores de Jair Bolsonaro do que entre os que votaram em Lula no segundo turno de 2022.

Isso coloca em xeque a ideia de que sua candidatura seja simplesmente uma alternativa de centro tradicional.

Cury tenta ocupar um espaço de despolarização, mas sua composição eleitoral pode ser mais complexa. Ele consegue atrair pessoas insatisfeitas com os dois principais polos da disputa, ao mesmo tempo em que encontra espaço entre uma parcela do eleitorado que anteriormente apoiou Bolsonaro.

As propostas de Augusto Cury vão muito além da imagem de escritor

Por trás do crescimento nas pesquisas existe também uma plataforma política que mistura educação, empreendedorismo, segurança pública, tecnologia e mudanças no sistema político.

Uma das propostas apresentadas pelo candidato é a criação de 10 mil clubes de empreendedorismo em escolas, universidades e igrejas. Cury também defende um Ministério do Empreendedorismo, com medidas voltadas principalmente para pequenos negócios e acesso a crédito.

Na área institucional, o candidato defende o fim da reeleição e uma mudança no modelo de governo brasileiro. Cury é favorável ao semipresidencialismo, sistema no qual o primeiro-ministro teria papel relevante na condução do governo.

A ideia representa uma mudança profunda em relação ao presidencialismo adotado atualmente no Brasil.

Cury também procura associar sua candidatura a temas relacionados à tecnologia e à inovação. Entre suas propostas está a criação de um Ministério da Inteligência Artificial e Robótica, embora a ideia tenha provocado críticas e memes nas redes sociais, especialmente depois de suas entrevistas recentes.

Outra proposta que ganhou grande repercussão foi a utilização de drones para auxiliar no combate à violência contra mulheres. Segundo Cury, equipamentos poderiam ser acionados em situações de emergência e chegar ao local antes das equipes policiais.

A ideia rapidamente se espalhou pela internet, mas também virou motivo de brincadeiras e críticas.

Esse episódio revela um dos maiores desafios da candidatura: transformar propostas chamativas em um programa de governo que pareça viável para o eleitor.

Cury possui uma vantagem que poucos candidatos conseguem apresentar: uma enorme audiência própria. Ao contrário de políticos que precisam construir reconhecimento praticamente do zero, ele já chega à campanha com milhões de pessoas acompanhando seu trabalho.

Por outro lado, notoriedade não significa necessariamente intenção de voto consolidada.

O eleitor que acompanha um escritor ou influenciador nas redes sociais pode ainda não ter decidido votar nele para presidente. A campanha precisa transformar curiosidade em identificação política, identificação em intenção de voto e, finalmente, intenção em voto efetivo.

Esse é o grande teste que começa agora.

O fenômeno ainda não mudou a disputa pelo segundo turno

Apesar do crescimento de Cury no primeiro turno, os números mostram que a eleição continua concentrada principalmente em Lula e Flávio Bolsonaro.

Na pesquisa BTG/Nexus, um eventual segundo turno entre os dois permanece praticamente empatado, com 46% para Lula e 45% para Flávio Bolsonaro. O crescimento de Cury, portanto, ainda não foi suficiente para alterar diretamente essa projeção.

Isso significa que o candidato do Avante ainda precisa avançar bastante para realmente ameaçar a passagem dos dois primeiros colocados.

Mas há uma diferença importante em relação ao cenário de algumas semanas atrás.

Antes, a pergunta era se Augusto Cury conseguiria ultrapassar os candidatos que disputavam o espaço de terceira força.

Agora, a pergunta passou a ser outra:

até onde ele consegue chegar?

Cury já ultrapassou nomes que vinham aparecendo à sua frente, como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, dependendo do levantamento considerado. A pesquisa BTG/Nexus colocou o escritor em um patamar de dois dígitos, algo que nenhum outro nome da chamada terceira via havia conseguido alcançar naquele levantamento.

A campanha também ganhou impulso com o apoio de personalidades das redes sociais. Pablo Marçal, que também participou da disputa presidencial, apareceu ao lado de Cury em uma transmissão depois do debate, enquanto influenciadores passaram a divulgar conteúdos favoráveis ao candidato.

Esse movimento ajudou a ampliar a exposição de Cury, mas também trouxe questionamentos sobre o caráter orgânico do crescimento.

O candidato ganhou milhões de seguidores em poucos dias, algo que chamou atenção de analistas e adversários. A campanha nega irregularidades, enquanto reportagens apontam que parte dos conteúdos também recebeu impulsionamento pago. Segundo dados citados pelo UOL, uma publicação de Cury sobre o debate recebeu R$ 15 mil em investimento de mídia na plataforma da Meta.

Por isso, o crescimento digital precisa ser observado com cuidado.

Ter milhões de seguidores pode ajudar uma candidatura a dominar a conversa pública, mas não garante que todos esses seguidores estejam dispostos a votar no candidato.

Quem é, afinal, o eleitor de Augusto Cury?

Essa talvez seja a questão mais interessante neste momento.

Cury possui uma característica incomum entre os presidenciáveis: sua fama nasceu fora da política.

Durante décadas, seu público foi formado por pessoas interessadas em comportamento, educação, inteligência emocional, relacionamentos e desenvolvimento pessoal. Agora, essa mesma audiência está sendo apresentada a um discurso político.

A campanha tenta transformar essa identidade em uma espécie de diferencial.

Em vez de se apresentar como um político profissional, Cury procura aparecer como alguém que chega à política vindo de outra área e que pretende aplicar conhecimentos de gestão, educação e comportamento à administração pública.

É uma estratégia semelhante à de outros outsiders que conseguiram crescer rapidamente em diferentes momentos da política mundial.

No caso brasileiro, porém, existe um ingrediente adicional: a disputa de 2026 acontece em um ambiente altamente polarizado.

Parte dos eleitores está fortemente alinhada a Lula. Outra parcela está fortemente alinhada ao bolsonarismo. Entre esses dois grupos existe um conjunto de pessoas que procura uma alternativa.

Cury tenta ocupar exatamente esse espaço.

O problema é que esse eleitorado não é necessariamente homogêneo.

Uma pessoa pode rejeitar Lula e Bolsonaro por motivos completamente diferentes de outra. Pode ser liberal na economia, conservadora nos costumes, progressista em determinadas pautas ou simplesmente cansada da disputa política permanente.

Encontrar uma mensagem capaz de reunir todos esses eleitores é uma tarefa extremamente difícil.

O salto de 11% pode ser começo de uma nova disputa

A ascensão de Augusto Cury é, sem dúvida, um dos acontecimentos mais inesperados da corrida presidencial de 2026.

Em questão de semanas, o candidato saiu de percentuais próximos de 1% ou 2% para números que já o colocam na casa dos dois dígitos em um dos principais levantamentos.

Ele conseguiu aumentar sua presença na televisão, dominar parte das conversas nas redes sociais e transformar seu próprio nome em assunto político.

Mas a eleição ainda está longe de estar definida.

O próximo desafio será saber se Cury consegue sustentar os 11%, crescer além desse patamar e convencer o eleitor de que sua candidatura é mais do que um fenômeno provocado pela exposição recente.

A próxima sequência de debates, entrevistas e pesquisas será fundamental.

Se os números permanecerem elevados, Cury poderá deixar de ser tratado apenas como uma surpresa e passar a ser considerado um dos protagonistas da eleição.

Se houver uma queda rápida, o episódio poderá ser lembrado como uma das maiores ondas digitais da campanha, mas sem força suficiente para alterar o resultado final.

Por enquanto, uma coisa já mudou.

Augusto Cury entrou definitivamente no radar da eleição presidencial.

E, depois de semanas em que quase ninguém discutia suas chances, o escritor agora começa a disputar espaço com os nomes que dominavam a corrida desde o início.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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