Principais destaques
- Temperaturas recordes: a região do Niño 3.4 registrou até 3,11 °C acima da média em setembro, superando marcas anteriores para esta época do ano.
- Um evento excepcional: modelos indicam que o fenômeno pode atingir intensidade inédita desde 1950, enquanto estudos com corais apontam para uma dimensão ainda mais extraordinária.
- Governos são pressionados: cientistas e figuras públicas já pedem preparação para impactos em agricultura, incêndios, secas, chuvas e temperaturas extremas.
O Pacífico está esquentando rápido demais 🌡️
O El Niño que está se formando no Pacífico já ultrapassou alguns recordes históricos de temperatura da superfície do mar. E o detalhe que mais chama atenção é quando esses recordes estão acontecendo.
Em 19 de setembro, a região do Niño 3.4 chegou a 3,05 °C acima da média, segundo dados divulgados pelo Washington Post. Dois dias depois, o Carbon Brief apontou uma leitura diária ainda maior, de 3,11 °C.
As pequenas diferenças entre os números têm uma explicação: os conjuntos de dados utilizam diferentes linhas de base. O ponto importante é outro. A intensidade do aquecimento já está em território excepcional.
📈 E ainda pode piorar: meteorologistas do governo dos Estados Unidos esperam que o fenômeno continue se fortalecendo até o fim do ano.
Ainda não é oficialmente o mais forte
Aqui entra uma distinção importante.
A NOAA não declarou este como o El Niño mais intenso já registrado. Seu principal indicador utiliza médias de três meses e, por esse critério, o fenômeno de 1997–98 ainda permanece à frente.
Mas os modelos apontam para uma disputa que pode ficar bem mais apertada nos próximos meses.
O Centro de Previsão Climática dos EUA calcula mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte.
E há outra estimativa especialmente chamativa: a probabilidade de que outubro a dezembro seja mais intenso do que qualquer El Niño registrado desde 1950 é de 75%.
🌎 O problema não é apenas quebrar um recorde. É quebrá-lo enquanto o fenômeno ainda está ganhando força.
Pode chegar a 4,1 °C? 🔥
Os modelos reunidos pelo Carbon Brief projetam um pico de aproximadamente 4,1 °C acima da média, potencialmente entre novembro e janeiro.
Isso não significa que 4,1 °C esteja garantido. Previsões de intensidade do ENSO podem mudar à medida que novas observações entram nos modelos.
Mas a possibilidade ajuda a dimensionar o que está sendo observado.
🔎 A comparação histórica: o El Niño de 2015–16, um dos eventos mais fortes da era moderna, atingiu seu pico em novembro de 2015. O recorde atual, porém, apareceu cerca de dois meses antes da época em que aquela marca foi estabelecida.
E de onde veio a história dos “1.000 anos”? 🧪
A afirmação sobre um possível El Niño sem precedentes em séculos não surgiu simplesmente da previsão meteorológica atual.
Ela está relacionada a um estudo publicado na Science em agosto, que utilizou registros preservados em corais das Ilhas Galápagos para reconstruir a intensidade de eventos passados.
Os pesquisadores concluíram que os El Niños dos últimos 40 anos foram quase 40% mais fortes do que os eventos ocorridos antes da industrialização.
Mais impressionante: esses eventos recentes foram mais intensos do que qualquer outro identificado nos registros dos mil anos anteriores.
É daí que vem a comparação com um possível El Niño de escala milenar.
🧬 Mas há uma ressalva: isso não significa que os cientistas já saibam que o evento atual será o mais forte dos últimos 1.000 anos. A afirmação é uma possibilidade baseada na intensidade observada e no contexto das reconstruções climáticas.
Um climatologista ouvido pelo programa More or Less, da BBC, resumiu a incerteza dizendo que “não está fora de questão” que este seja o El Niño mais forte dos últimos 500 ou até 1.000 anos.
O mundo sente o El Niño de maneiras diferentes 🌎
O fenômeno não produz simplesmente “mais calor” em todos os lugares.
Sua influência sobre a circulação atmosférica pode alterar padrões de chuva, temperatura e incêndios muito além do Pacífico.
Entre os efeitos já associados ao fenômeno estão:
• América Central: risco de seca e perdas agrícolas.
• Índia: possibilidade de uma monção mais fraca.
• Indonésia: maior risco de incêndios.
• Estados Unidos: diferenças regionais importantes nas temperaturas e precipitação.
No sul de Wisconsin, por exemplo, o Serviço Meteorológico Nacional prevê um inverno mais quente e com menos neve. No Kansas, a tendência pode ser de precipitação um pouco acima do normal.
Mas isso é uma média estatística, não uma garantia para cada cidade.
A campanha para “Alerta El Niño” 📢
Enquanto os meteorologistas acompanham os modelos, um grupo de cientistas e figuras públicas decidiu pressionar os governos a agir antes que os impactos apareçam.
A campanha Alerta El Niño foi lançada pela Yellow Dot Studios, produtora do cineasta Adam McKay.
Entre os apoiadores estão Jane Fonda, Mark Ruffalo e Javier Bardem.
A proposta é direta: incorporar os riscos associados ao El Niño aos planos de emergência dos governos.
🗣 O argumento: não esperar que os efeitos apareçam para começar a preparar infraestrutura, agricultura, sistemas de emergência e população.
O pesquisador espanhol Antonio Turiel foi ainda mais longe ao falar sobre o próximo verão europeu. Segundo ele, algumas cidades do sul da Espanha poderiam chegar a 50 °C, e os governos deveriam agir “agora” para reduzir os impactos do que pode vir pela frente.
E a próxima atualização pode ser importante ⏳
A NOAA deve divulgar sua próxima atualização sobre o ENSO em 8 de outubro.
Ela ajudará a responder uma pergunta que ainda está em aberto: o El Niño atual está apenas produzindo recordes precoces ou realmente caminhando para superar os eventos mais extremos já registrados?
Por enquanto, a resposta é inconclusiva.
O que já está claro é que o Pacífico está oferecendo aos meteorologistas um cenário extraordinário. E, se os modelos estiverem certos, o calor que já chama atenção agora pode ser apenas o começo da história.
