Como um modelo matemático antecipou o resultado da eleição com apenas 2,42% das urnas apuradas

Renê Fraga
10 min de leitura

Principais destaques

  • Uma projeção surpreendeu pela precisão: o modelo estimou o resultado da disputa presidencial quando apenas 2,42% das urnas haviam sido apuradas, com diferença inferior a 0,2 ponto percentual em relação ao resultado final.
  • O histórico eleitoral fez a diferença: a metodologia combinou dados de eleições anteriores com características regionais e municipais para estimar os votos ainda não contabilizados.
  • A apuração foi além da contagem: o sistema conseguiu antecipar não apenas o resultado final, mas também duas viradas observadas durante a divulgação dos votos.

Imagine tentar prever o resultado de uma eleição nacional quando mais de 97% das urnas ainda não foram contabilizadas. Parece uma aposta arriscada, mas foi justamente esse o desafio enfrentado por um modelo estatístico desenvolvido pelo pesquisador Rodrigo Mahlmeister.

Doutorando em ciência política pela Universidade Duke, nos Estados Unidos, mestre em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) e formado em economia pela mesma instituição, Mahlmeister desenvolveu uma projeção contratada pelo Estadão que conseguiu antecipar o resultado da disputa presidencial com uma diferença inferior a 0,2 ponto percentual.

O detalhe que chama a atenção é o momento em que isso aconteceu: com apenas 2,42% das urnas apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Em vez de simplesmente extrapolar os primeiros números divulgados, o modelo utilizou padrões históricos de votação para estimar o comportamento das urnas que ainda não haviam entrado na contagem oficial.

🧠 O segredo não estava na quantidade de votos

A apuração tradicional funciona de maneira direta: os votos são contabilizados à medida que os resultados das urnas chegam ao sistema do TSE. No início, portanto, o retrato eleitoral ainda está incompleto e pode refletir de maneira desproporcional as regiões que tiveram seus resultados totalizados primeiro.

A projeção estatística trabalha de outra forma. Ela considera que as urnas ainda não apuradas também contêm informações previsíveis, desde que seja possível identificar padrões relevantes em eleições anteriores.

🔎 O que o modelo procurou: relações entre o desempenho dos candidatos em diferentes localidades, levando em conta o histórico de votação e as características de cada município.

Entre as variáveis utilizadas estavam:

• Estado: diferenças regionais no comportamento do eleitorado.

• Porte do município: padrões que variam entre cidades de diferentes tamanhos.

• Perfil eleitoral local: características observadas em disputas anteriores, utilizadas para estimar mudanças no desempenho dos candidatos.

A partir dessas informações, o sistema compara os primeiros resultados disponíveis com os padrões históricos e calcula como as demais urnas provavelmente se comportarão.

A diferença é importante. Uma projeção baseada apenas na média dos primeiros votos poderia produzir resultados distorcidos se as primeiras cidades contabilizadas não representassem adequadamente o conjunto do eleitorado.

📊 Como prever votos que ainda não foram contados?

A metodologia parte de uma premissa: embora o comportamento eleitoral mude de uma eleição para outra, essas mudanças não acontecem necessariamente de maneira aleatória.

Segundo Mahlmeister, a disputa entre o PT e o campo político ligado a Bolsonaro apresenta padrões que podem ser estudados ao longo de diferentes eleições.

“É um comportamento eleitoral do brasileiro que de fato muda de uma eleição para a outra, mas muda de uma forma sistemática.”

A declaração ajuda a entender a lógica do modelo. Se determinadas localidades apresentam padrões relativamente consistentes de votação, e outras exibem mudanças recorrentes entre eleições, essas diferenças podem ser incorporadas aos cálculos.

Para a disputa analisada, foram considerados dois conjuntos de dados: os resultados do segundo turno de 2022 e os do primeiro turno de 2026.

A combinação permitiu estimar como os votos poderiam se distribuir no segundo turno, considerando as diferenças entre os pleitos e o desempenho dos candidatos em cada região.

💡 A ideia central: não é necessário esperar que todas as urnas sejam contabilizadas para estimar o resultado. É preciso, porém, construir um modelo capaz de relacionar os dados disponíveis ao comportamento provável das urnas restantes.

🔄 Por que a projeção conseguiu antecipar duas viradas?

Durante uma apuração presidencial, a liderança parcial pode mudar diversas vezes. Isso acontece porque os resultados não são necessariamente divulgados em uma ordem que represente proporcionalmente todas as regiões e todos os perfis de eleitores.

Uma região pode ter seus votos contabilizados antes de outra com preferência eleitoral diferente. Assim, o candidato que aparece na frente no começo da noite não necessariamente terminará a disputa como vencedor.

O modelo desenvolvido por Mahlmeister conseguiu antecipar duas dessas viradas ao longo da apuração.

Isso é relevante porque prever o resultado final é apenas parte do desafio. Uma projeção também precisa acompanhar as mudanças na composição dos votos contabilizados e reconhecer quando a liderança parcial não representa a tendência do resultado nacional.

Conforme novas urnas são totalizadas, o modelo incorpora informações atualizadas e recalcula suas estimativas. O objetivo é reduzir as incertezas à medida que a apuração avança.

🎯 A diferença entre uma projeção e o resultado oficial

A precisão da estimativa chamou a atenção porque a projeção ficou muito próxima do resultado divulgado ao final da contagem.

IndicadorResultado
Urnas apuradas quando a projeção chamou a atenção2,42%
Projeção para Lula51,6% dos votos válidos
Projeção para Flávio Bolsonaro48,4% dos votos válidos
Resultado final de Lula51,79%
Resultado final de Flávio Bolsonaro48,21%

A diferença entre a estimativa e o resultado final foi de 0,19 ponto percentual para cada candidato, considerando os valores apresentados.

O resultado oficial, conforme os números divulgados pelo TSE citados na reportagem, foi de 64.256.232 votos para Luiz Inácio Lula da Silva e 59.826.041 para Flávio Bolsonaro.

É importante distinguir os dois processos: a projeção oferece uma estimativa estatística, enquanto a apuração oficial contabiliza os votos efetivamente registrados nas urnas. O modelo não substitui o TSE nem determina o resultado da eleição.

⚠️ Precisão não significa certeza absoluta

Um resultado tão próximo do oficial pode dar a impressão de que o modelo sabe antecipadamente o que acontecerá. Mas a interpretação exige cuidado.

Toda projeção depende da qualidade dos dados, das variáveis selecionadas e da capacidade do modelo de representar o comportamento eleitoral. Mudanças inesperadas, padrões históricos que deixam de se repetir ou diferenças relevantes entre as urnas já apuradas e as restantes podem afetar as estimativas.

Também é importante separar duas medidas: a precisão de uma projeção específica e a capacidade de um modelo de produzir estimativas confiáveis em diferentes eleições.

Para avaliar essa capacidade, seria necessário examinar o desempenho do método em outras disputas, suas margens de erro, os intervalos de incerteza e os critérios usados para validar as previsões.

Ainda assim, o resultado apresentado mostra como a combinação de dados históricos e informações parciais pode oferecer uma leitura antecipada da tendência eleitoral.

🗳️ O que isso muda na cobertura das eleições?

Para veículos de comunicação, projeções desse tipo podem ajudar a contextualizar os números divulgados durante a apuração e explicar por que uma liderança parcial nem sempre corresponde ao resultado mais provável.

Em vez de acompanhar apenas o percentual de urnas contabilizadas, o público pode observar como os votos já conhecidos se relacionam com o histórico de cada região e com o comportamento esperado das demais localidades.

Isso também exige transparência. Uma projeção jornalística precisa deixar claro que se trata de uma estimativa, explicar os principais elementos de sua metodologia e atualizar os resultados conforme chegam novos dados.

A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro ilustra o potencial dessa abordagem: com uma parcela pequena dos votos contabilizados, foi possível estimar um resultado muito próximo do oficial, segundo os números apresentados pelo Estadão.

O próximo passo para avaliar a robustez desse tipo de modelo é verificar se a mesma precisão se mantém em cenários eleitorais diferentes. Afinal, antecipar um resultado é impressionante. Conseguir demonstrar que o método funciona de maneira consistente é o que transforma uma previsão surpreendente em uma ferramenta estatística confiável.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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