Flávio Bolsonaro poderia levar o Brasil a um golpe de Estado?

Renê Fraga
16 min de leitura

Principais destaques

  • O alerta vai além dos tanques: uma democracia também pode ser enfraquecida por mudanças institucionais que concentram poder e reduzem os mecanismos de controle.
  • O precedente brasileiro ainda pesa: a contestação eleitoral de 2022 e os ataques de 8 de janeiro de 2023 mostram como uma derrota nas urnas pode desencadear uma crise institucional.
  • A história oferece três referências: o golpe militar de 1964, a invasão do Capitólio nos Estados Unidos e a erosão democrática na Hungria ajudam a identificar sinais de risco.

A imagem clássica de um golpe de Estado é bastante conhecida: militares nas ruas, Congresso fechado e um presidente deposto. Mas as democracias do século XXI também enfrentam ameaças menos cinematográficas, que avançam por meio de disputas jurídicas, reformas constitucionais e ataques à credibilidade das instituições.

É nesse contexto que vale analisar a possibilidade de uma eventual Presidência de Flávio Bolsonaro representar um risco à democracia brasileira.

A resposta exige uma distinção importante. Tentar enfraquecer os mecanismos democráticos não é a mesma coisa que conseguir instaurar uma ditadura. Entre uma coisa e outra, existe uma disputa pelo apoio do Congresso, das Forças Armadas, dos órgãos de controle e da sociedade.

O histórico do bolsonarismo torna essa discussão pertinente. Mas não autoriza concluir, antecipadamente, que Flávio necessariamente tentaria um golpe.

O que torna essa hipótese relevante em 2026? ⚠️

A avaliação precisa considerar três dimensões: as declarações do senador, sua relação política com Jair Bolsonaro e as propostas de mudança nas instituições.

Flávio tem defendido mudanças constitucionais sob o argumento de que o Brasil não vive uma democracia plena. Entre as propostas mencionadas estão reformas do Judiciário e do sistema político, o fim da reeleição presidencial e a possibilidade de ampliar o mandato presidencial de quatro para cinco anos.

É importante separar os fatos de suas possíveis interpretações. Reformar o Judiciário, alterar a duração dos mandatos ou propor emendas constitucionais não caracteriza, isoladamente, uma ameaça democrática.

🔎 O ponto de atenção: o risco aparece quando mudanças institucionais são combinadas com tentativas de enfraquecer a independência dos órgãos de controle, restringir a oposição ou dificultar a alternância de poder.

Há outro elemento relevante: a forma como Flávio interpreta os acontecimentos de 2022 e 2023.

De acordo com o texto-base, em entrevista à TV Globo, em 16 de outubro de 2026, ele classificou como farsa o julgamento de seu pai e negou que os atos de 8 de janeiro tenham constituído uma tentativa de golpe. Essas declarações, se confirmadas em suas palavras e contexto, merecem ser examinadas à luz das decisões judiciais e das evidências reunidas sobre a tentativa de impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva.

Negar ou relativizar uma tentativa de ruptura anterior não prova que alguém pretenda repetir o episódio. Ainda assim, pode ser um indicador importante para avaliar o compromisso de uma liderança com a transferência pacífica do poder.

1964: quando a ruptura foi apresentada como salvação 🇧🇷

O golpe militar de 1964 é a primeira referência histórica incontornável.

O governo João Goulart enfrentava forte polarização política, mobilização de setores civis e militares e uma campanha anticomunista que apresentava o país como ameaçado por uma crise de grandes proporções.

Em 31 de março e 1º de abril, o movimento militar derrubou o presidente. A intervenção foi justificada por seus apoiadores como necessária para restaurar a ordem nacional. O regime autoritário, entretanto, durou até 1985.

A conexão com o presente não está em afirmar que o Brasil repetirá a mesma sequência de acontecimentos.

Está na lógica política que antecede uma ruptura: a ideia de que as instituições existentes perderam legitimidade, de que os adversários representam uma ameaça existencial e de que medidas excepcionais seriam necessárias para salvar o país.

🧩 A diferença histórica importa: em 1964, a ruptura assumiu a forma de uma intervenção militar direta. Hoje, uma crise democrática poderia começar com pressões sobre tribunais, questionamentos eleitorais e tentativas de politizar órgãos estatais, sem que o fechamento imediato do Congresso estivesse necessariamente no horizonte.

Estados Unidos: o perigo de não aceitar a derrota eleitoral 🇺🇸

A experiência norte-americana oferece um paralelo mais próximo dos acontecimentos brasileiros recentes.

Após perder a eleição presidencial de 2020, Donald Trump insistiu em alegações de fraude eleitoral. Em 6 de janeiro de 2021, apoiadores do então presidente invadiram o Capitólio enquanto o Congresso certificava a vitória de Joe Biden.

O episódio demonstrou que uma democracia consolidada não está imune a uma crise de legitimidade quando uma liderança política contesta o resultado das urnas e seus apoiadores passam a tratar a transferência de poder como ilegítima.

No Brasil, a sequência posterior à eleição de 2022 incluiu acampamentos em frente a instalações militares, questionamentos do resultado eleitoral e, em 8 de janeiro de 2023, a invasão das sedes dos Três Poderes, em Brasília.

As circunstâncias dos dois países são diferentes, assim como seus sistemas políticos. A semelhança mais importante é institucional: a aceitação da derrota é um dos testes decisivos de qualquer liderança democrática.

💡 Uma eleição não é plenamente democrática apenas porque as pessoas conseguem votar. Também é necessário que quem perde aceite o resultado e permita que o vencedor assuma o poder.

Por isso, uma eventual Presidência de Flávio Bolsonaro deveria ser avaliada não apenas pelo que propõe durante a campanha, mas também pelo que faria diante de uma derrota eleitoral, de uma decisão judicial desfavorável ou de uma investigação envolvendo aliados.

Hungria: quando a democracia perde força por dentro 🏛️

O caso húngaro, sob Viktor Orbán, ajuda a compreender outra modalidade de risco: a erosão democrática gradual.

Nesse modelo, eleições continuam acontecendo, partidos de oposição permanecem formalmente existentes e instituições mantêm seus nomes. Entretanto, alterações legais e institucionais podem reduzir a independência dos órgãos de controle, favorecer o grupo governante e tornar a competição política progressivamente desigual.

A diferença em relação a um golpe militar clássico é significativa. Não existe necessariamente um momento único em que a democracia deixa de funcionar. O processo pode ocorrer em etapas.

📌 Como isso se relaciona com o Brasil?

Um governo poderia tentar utilizar sua maioria parlamentar para modificar o funcionamento das instituições, ampliar a influência política sobre órgãos de fiscalização ou reduzir a capacidade de investigação de autoridades independentes.

Isso não significa que qualquer reforma constitucional represente uma tentativa de autoritarismo. O que precisa ser examinado é o conteúdo das medidas, a transparência do processo e seus efeitos concretos sobre os direitos fundamentais e a independência institucional.

A comparação com a Hungria serve justamente para ampliar a análise: a ameaça democrática nem sempre aparece como uma ruptura ostensiva. Às vezes, as regras continuam existindo, mas deixam de impor limites efetivos a quem governa.

Como uma erosão democrática poderia acontecer no Brasil?

Um cenário hipotético envolvendo um eventual governo Flávio Bolsonaro poderia combinar diferentes movimentos. Não se trata de uma previsão de suas intenções, mas de um modelo para identificar sinais de alerta.

1️⃣ Deslegitimar as instituições: apresentar o Judiciário, o sistema eleitoral e os órgãos de fiscalização como inimigos políticos, em vez de contestar suas decisões pelos meios legais.

2️⃣ Modificar os contrapesos: promover reformas que reduzam a independência dos tribunais ou a capacidade de fiscalização do Executivo.

3️⃣ Politizar estruturas do Estado: utilizar nomeações e pressões administrativas para favorecer aliados ou dificultar investigações sobre o governo.

4️⃣ Enfraquecer a oposição: criar obstáculos desproporcionais à atuação de adversários, à imprensa independente e à sociedade civil.

5️⃣ Contestar a transferência de poder: questionar uma eventual derrota eleitoral sem provas suficientes e estimular mobilizações para impedir que o vencedor assuma o cargo.

Essas etapas não precisam ocorrer exatamente nessa ordem. Tampouco a presença de um único elemento comprova uma estratégia autoritária.

O sinal mais preocupante seria a combinação persistente entre discursos de deslegitimação, mudanças institucionais concretas e resistência a decisões que limitassem o poder do governo.

O Brasil teria instituições capazes de impedir uma ruptura?

Sim. O país dispõe de mecanismos constitucionais e políticos que podem dificultar uma tentativa de golpe. A questão é se eles continuariam independentes e dispostos a atuar em uma crise.

Instituição ou fatorPapel na proteção democrática
STF e Justiça EleitoralControlar a constitucionalidade de atos e proteger a integridade do processo eleitoral, dentro de suas competências.
Congresso NacionalFiscalizar o Executivo, rejeitar medidas abusivas e impedir mudanças constitucionais incompatíveis com a Constituição.
Forças ArmadasCumprir a Constituição e não executar ordens ilegais.
Polícia Federal e Ministério PúblicoInvestigar possíveis crimes e responsabilizar seus autores com autonomia e devido processo legal.
Imprensa e sociedade civilDocumentar abusos, fiscalizar o poder público e mobilizar a sociedade.
Governos estaduaisPreservar centros de poder eleitos e contribuir para a continuidade da ordem constitucional.

O precedente de 2023 mostra que as instituições brasileiras foram capazes de investigar e processar envolvidos nos acontecimentos relacionados à tentativa de impedir a posse presidencial. Isso é relevante, mas não constitui garantia de que uma futura crise seria resolvida com a mesma eficácia.

A independência institucional depende também de fatores políticos. Se o Congresso abandonar sua função fiscalizadora, se órgãos de controle forem capturados ou se agentes responsáveis pela segurança pública aceitarem ordens ilegais, as barreiras podem se enfraquecer.

O risco, portanto, não depende apenas da vontade de um presidente. Depende também de sua capacidade de reunir aliados dispostos a ultrapassar limites constitucionais.

Cinco sinais que merecem acompanhamento 🔎

Para avaliar concretamente o comportamento de Flávio Bolsonaro, discursos isolados não bastam. É mais útil observar decisões, propostas e atitudes verificáveis.

  • Aceitação dos resultados eleitorais: reconheceria uma derrota sem promover alegações infundadas de fraude?
  • Respeito às decisões judiciais: recorreria pelos meios legais ou procuraria desobedecer a decisões e intimidar magistrados?
  • Independência dos órgãos de controle: preservaria a capacidade de investigar integrantes do próprio governo?
  • Conteúdo das reformas: as mudanças ampliariam a representação política ou reduziriam os mecanismos de fiscalização?
  • Relação com a violência política: condenaria inequivocamente tentativas de intimidação e ruptura ou as justificaria e minimizaria?

Nenhum desses indicadores, isoladamente, permite determinar o futuro de uma democracia. O conjunto, porém, ajuda a diferenciar uma disputa política dura de um processo de concentração autoritária de poder.

Afinal, qual é a probabilidade de um golpe?

Não seria responsável atribuir uma porcentagem precisa com as informações disponíveis. Declarações públicas, alianças políticas e precedentes históricos não permitem calcular, de maneira confiável, a probabilidade individual de uma tentativa de golpe ou de seu sucesso.

É possível, entretanto, distinguir três cenários.

CenárioAvaliação qualitativa
Conflito entre Executivo e JudiciárioPlausível, especialmente diante de propostas de reforma institucional.
Erosão gradual dos mecanismos democráticosMerece atenção, considerando o histórico recente do bolsonarismo e os riscos associados à concentração de poder.
Tentativa de ruptura eleitoral ou golpe bem-sucedidoNão pode ser descartada, mas depende de variáveis políticas, institucionais e militares que não permitem uma previsão segura.

Uma tentativa de golpe e um golpe bem-sucedido são eventos diferentes. O primeiro depende da decisão de determinados atores de romper a ordem constitucional. O segundo exige, adicionalmente, capacidade de neutralizar a resistência institucional e consolidar um novo arranjo de poder.

O Congresso, as Forças Armadas, o Judiciário, a sociedade civil e a reação internacional poderiam influenciar esse desfecho, sem que seja possível antecipar com segurança como cada um agiria.

O maior perigo talvez não pareça um golpe

A história oferece três lições complementares.

Em 1964, a ruptura foi aberta e militar. Nos Estados Unidos, em 2021, a contestação eleitoral culminou em violência contra o Congresso. Na Hungria, a deterioração democrática ocorreu por meio de mudanças institucionais sucessivas.

Os casos não são equivalentes, mas mostram que a democracia pode ser ameaçada de diferentes maneiras.

No caso de Flávio Bolsonaro, a continuidade política com seu pai, as declarações sobre o julgamento relacionado à tentativa de golpe e as propostas de mudança constitucional justificam uma análise rigorosa. Esses elementos não provam uma intenção futura de ruptura, mas tornam legítimo acompanhar seus efeitos sobre as instituições.

A questão central não é apenas se um eventual presidente tentaria mobilizar os militares contra o Congresso. É também se usaria sua legitimidade eleitoral para enfraquecer os mecanismos que limitam seu poder.

Uma democracia não é testada apenas quando um governante vence. Ela é testada, sobretudo, quando precisa impedi-lo de fazer algo que a Constituição não permite.

E é nesse momento, quando as regras deixam de ser convenientes para quem governa, que será possível avaliar se os limites institucionais do Brasil continuarão funcionando.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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