Principais destaques:
- Sabemos mais sobre a superfície de Marte do que sobre o fundo dos oceanos da Terra
- Menos de um terço do leito marinho foi mapeado com precisão até hoje
- Novas tecnologias, incluindo robôs submarinos e satélites, prometem revelar montanhas e ecossistemas desconhecidos
Quando pensamos em territórios inexplorados, é comum imaginar o espaço. Mas a verdade é que o maior mistério pode estar aqui mesmo, sob nossos pés. O fundo do mar continua sendo um dos ambientes menos conhecidos do planeta, apesar de cobrir a maior parte da superfície terrestre.
Metade dos oceanos do mundo tem mais de 3,2 quilômetros de profundidade. Nessas regiões, longe da luz solar, existem planícies vastas, cadeias de montanhas submersas e trincheiras formadas pelo movimento das placas tectônicas. Ainda assim, os mapas dessas áreas são menos detalhados do que os da Lua.
Um território mais desconhecido que a Lua
Um exemplo impressionante é a Fossa das Marianas, considerada o ponto mais profundo da Terra. Ela é cerca de 2 quilômetros mais profunda do que o Monte Everest é alto. Mesmo assim, essa região extrema continua pouco estudada.
Além das grandes fossas oceânicas, existem dezenas de milhares de montanhas submarinas chamadas montes submarinos. Muitas têm origem vulcânica e podem crescer tanto que ultrapassam a superfície do mar, formando ilhas. O vulcão adormecido Mauna Kea, no Havaí, por exemplo, mede mais da base no fundo do Pacífico até o topo do que o Everest mede do nível do mar ao cume.
Apesar disso, localizar essas montanhas não é simples. Diferentemente das paisagens terrestres, elas permanecem escondidas sob quilômetros de água.
Como a ciência está “escutando” o fundo do mar
Tradicionalmente, o mapeamento do fundo marinho é feito por navios que utilizam sonar para medir a profundidade. Hoje, veículos submarinos autônomos também ajudam nessa tarefa. Satélites complementam o trabalho ao detectar pequenas variações gravitacionais causadas por montanhas submersas.
Uma das iniciativas mais inovadoras envolve pequenos robôs flutuantes que captam ondas de pressão geradas por terremotos. Esses sensores fazem parte de projetos científicos que estudam a estrutura interna da Terra.
Em 2022, esses equipamentos registraram algo inesperado: ondas provocadas pela gigantesca erupção do vulcão submarino Hunga Tonga-Hunga Ha’apai. A explosão foi a maior em quase 150 anos e enviou ondas de pressão pelo Pacífico. Ao analisar diferenças nos sons captados, cientistas perceberam que montes submarinos desconhecidos estavam bloqueando parte da energia dessas ondas, criando verdadeiras “sombras acústicas”.
Na prática, isso significa que agora é possível identificar montanhas escondidas escutando como as ondas sonoras se comportam ao atravessar o oceano.
Riquezas ocultas e dilemas ambientais
O fundo do mar não guarda apenas mistérios geológicos. Ele também abriga formas de vida raras, como peixes e crustáceos adaptados a pressões extremas e ausência total de luz.
Além disso, o leito oceânico é rico em minerais estratégicos para a transição energética. Nódulos polimetálicos espalhados pelo fundo marinho contêm metais essenciais para baterias e tecnologias sustentáveis, como cobalto e elementos de terras raras.
No entanto, a possibilidade de exploração mineral levanta preocupações ambientais. Ecossistemas profundos são frágeis e ainda pouco compreendidos. A mineração submarina pode causar impactos irreversíveis antes mesmo de entendermos completamente esses ambientes.
Mapear o fundo do oceano não é apenas uma questão de curiosidade científica. É uma etapa fundamental para equilibrar exploração e preservação. Ao conhecermos melhor essas paisagens ocultas, poderemos decidir com mais responsabilidade como utilizá-las e protegê-las.
