Neandertais já tratavam cáries há 59 mil anos, revela descoberta inédita na Sibéria

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques:

  • Cientistas encontraram a evidência mais antiga já registrada de um tratamento dentário intencional.
  • Um neandertal utilizou ferramentas de pedra para perfurar uma cárie há cerca de 59 mil anos.
  • A descoberta indica que os neandertais possuíam conhecimento técnico, habilidade manual e resistência à dor muito antes do que se imaginava.

Uma descoberta arqueológica realizada na Sibéria está mudando profundamente a forma como os cientistas enxergam os neandertais. Pesquisadores identificaram sinais claros de um procedimento odontológico realizado há aproximadamente 59 mil anos em um molar encontrado na Caverna Chagyrskaya, localizada nas Montanhas Altai, no sudoeste da Sibéria.

O mais impressionante é que o tratamento não foi feito por Homo sapiens, mas sim por um neandertal. Segundo o estudo publicado na revista científica PLOS One, o dente apresenta marcas de perfuração feitas intencionalmente com uma ferramenta afiada de pedra. A descoberta representa o caso mais antigo já documentado de intervenção dentária em toda a história da humanidade e também o primeiro exemplo conhecido desse tipo de prática realizado por uma espécie diferente da nossa.

Até então, os registros mais antigos de tratamento dental tinham cerca de 14 mil anos. Agora, essa nova evidência empurra a linha do tempo da odontologia para dezenas de milhares de anos antes do que os pesquisadores acreditavam ser possível.

Um procedimento extremamente avançado para a época

O molar analisado chamou atenção dos pesquisadores logo no início das análises por apresentar uma cavidade profunda e incomum em sua superfície mastigatória. O orifício alcançava a polpa do dente, região interna extremamente sensível onde ficam nervos e vasos sanguíneos.

A arqueóloga Alisa Zubova, autora principal do estudo, explicou que o formato da cavidade era muito diferente do padrão natural normalmente observado em cáries antigas. Além disso, o dente apresentava pequenos arranhões e marcas lineares compatíveis com movimentos realizados por instrumentos pontiagudos.

Esses sinais levaram os cientistas à conclusão de que a perfuração foi feita deliberadamente. Segundo a equipe, o objetivo provavelmente era aliviar a dor provocada por uma infecção severa.

O arqueólogo John Olsen descreveu o procedimento como algo muito parecido com um tratamento de canal primitivo. De acordo com ele, a ferramenta de pedra teria sido girada sobre o dente para abrir a área comprometida e remover parte do tecido deteriorado pela cárie.

Embora pareça algo simples hoje em dia, realizar um procedimento desse tipo há quase 60 mil anos exigia um nível de precisão e controle impressionante. Os pesquisadores destacam que qualquer erro poderia causar dor extrema, sangramento intenso ou até infecções fatais.

Testes modernos ajudaram a confirmar a descoberta

Para comprovar que as marcas no molar realmente haviam sido produzidas por ferramentas de pedra, os cientistas realizaram uma série de experimentos usando dentes humanos modernos.

A equipe utilizou pontas de pedra semelhantes às encontradas nas escavações da própria caverna e reproduziu movimentos de raspagem e perfuração em dentes afetados por cáries artificiais. Depois disso, os pesquisadores compararam as marcas microscópicas deixadas pelos experimentos com aquelas presentes no molar neandertal.

Os resultados mostraram uma correspondência extremamente próxima.

A pesquisadora Lydia Zotkina afirmou que os testes demonstraram claramente que ferramentas de pedra afiadas eram capazes de remover tecido dental danificado de forma relativamente rápida e eficiente. Segundo ela, as marcas observadas no dente antigo não poderiam ter sido produzidas por desgaste natural, mastigação ou processos geológicos.

Além dos testes práticos, os cientistas também utilizaram microtomografia computadorizada para analisar o interior do molar sem danificá-lo. O exame revelou alterações profundas na dentina, compatíveis com um quadro severo de cárie.

Outro detalhe curioso encontrado no dente foram pequenos sulcos laterais semelhantes aos causados pelo uso repetido de palitos dentais. Isso sugere que os neandertais talvez já tentassem limpar os dentes ou aliviar irritações usando pequenos objetos de madeira ou osso.

O paciente sobreviveu ao tratamento

Um dos pontos mais impressionantes da descoberta é que o neandertal aparentemente sobreviveu ao procedimento e continuou usando o dente por um longo período.

Os pesquisadores identificaram sinais claros de desgaste posterior na superfície do molar, indicando que o indivíduo continuou mastigando normalmente após o tratamento. Isso significa que ele não apenas suportou a dor intensa da perfuração, como também conseguiu se recuperar.

Hoje, um procedimento envolvendo a exposição da polpa dentária seria extremamente doloroso mesmo com anestesia limitada. Imaginar alguém passando por isso há 59 mil anos, sem qualquer medicamento moderno, impressionou até os próprios cientistas envolvidos na pesquisa.

Para os autores do estudo, esse detalhe reforça a hipótese de que os neandertais tinham uma motivação clara para tentar aliviar dores persistentes e talvez já compreendessem, de maneira prática, que remover tecido infectado poderia melhorar a condição do paciente.

A descoberta também sugere um possível cuidado social dentro dos grupos neandertais. Alguns pesquisadores acreditam que o indivíduo pode ter recebido ajuda de outra pessoa durante o procedimento, já que perfurar um molar com precisão usando ferramentas rudimentares não seria uma tarefa fácil de realizar sozinho.

A descoberta muda a imagem dos neandertais

Durante muito tempo, os neandertais foram retratados como seres primitivos, violentos e intelectualmente inferiores aos humanos modernos. No entanto, descobertas recentes vêm desmontando essa visão antiga.

Hoje já existem evidências de que eles produziam ferramentas sofisticadas, cuidavam de membros feridos do grupo, enterravam seus mortos e talvez até utilizassem símbolos e pigmentos decorativos.

Agora, a nova pesquisa acrescenta outro elemento surpreendente a essa lista: práticas odontológicas.

Os autores do estudo afirmam que o caso demonstra uma combinação impressionante de habilidades cognitivas. Para realizar o procedimento, o neandertal precisava identificar a origem da dor, compreender que o problema estava no dente, escolher uma ferramenta adequada e aplicar movimentos precisos em uma região extremamente sensível da boca.

Além disso, também era necessário suportar um nível altíssimo de dor durante o processo.

Outro fator que torna o caso ainda mais raro é que cáries não eram comuns entre neandertais. A dieta desses grupos continha menos carboidratos e açúcares do que a alimentação de populações agrícolas posteriores, o que reduzia bastante os problemas dentários.

Por isso, encontrar um caso tão avançado de deterioração dental acompanhado de uma tentativa clara de tratamento representa algo absolutamente excepcional para os arqueólogos.

Uma nova visão sobre a medicina pré-histórica

Antes dessa descoberta, os registros mais antigos de intervenção odontológica vinham de um dente humano encontrado no norte da Itália, datado de aproximadamente 14 mil anos. Já os primeiros casos conhecidos de perfuração dental eram de cerca de 9 mil anos atrás, em um sítio neolítico localizado no atual Paquistão.

Com o novo estudo, a história da odontologia ganha um salto gigantesco para trás no tempo.

A descoberta mostra que práticas médicas rudimentares podem ter surgido muito antes do aparecimento das primeiras civilizações organizadas. Também reforça a ideia de que os neandertais eram muito mais inteligentes, adaptáveis e habilidosos do que a ciência acreditava há algumas décadas.

Para muitos pesquisadores, esse achado representa não apenas uma descoberta sobre dentes antigos, mas também uma nova peça importante para entender como nossos parentes evolutivos lidavam com sofrimento, doença e sobrevivência.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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