Principais destaques
- Apesar do nome, o sistema usado no Brasileirão não é igual ao da Copa do Mundo e utiliza outra tecnologia.
- Enquanto a Fifa apostou em um chip dentro da bola, a CBF decidiu confiar em um número maior de câmeras de alta velocidade.
- As duas soluções chegam praticamente ao mesmo resultado, mas percorrem caminhos diferentes para identificar um impedimento.
Quem assistiu à Copa do Mundo e agora acompanha o Campeonato Brasileiro provavelmente teve a mesma impressão: “Não era para aparecer aquela animação mostrando exatamente quando a bola foi tocada?”.
A dúvida faz sentido. Afinal, o impedimento semiautomático estreou no Brasileirão prometendo acabar com as intermináveis linhas desenhadas pelo VAR, mas a experiência visual ficou diferente da que milhões de pessoas viram nos jogos organizados pela Fifa.
A verdade é que o futebol brasileiro adotou um sistema diferente. O objetivo continua sendo o mesmo, descobrir em poucos segundos se um atacante estava ou não em posição irregular, mas a forma como essa resposta é encontrada mudou bastante.
É como comparar dois aplicativos de GPS: ambos levam você ao mesmo destino, porém cada um calcula a melhor rota de um jeito diferente.
Dois sistemas, uma mesma missão
Na Copa do Mundo do Catar, a Fifa utilizou uma solução desenvolvida pela Hawk-Eye, empresa que já era conhecida por tecnologias usadas no tênis e em outros esportes. O sistema combinava 16 câmeras espalhadas pelo estádio com um sensor eletrônico instalado dentro da bola.
Esse chip funcionava como um aliado importante. Sempre que um jogador tocava na bola, o sensor enviava um sinal quase instantâneo ao sistema. Na transmissão, isso aparecia em um gráfico semelhante a um eletrocardiograma, indicando o momento exato do passe. Era justamente essa referência que permitia criar a famosa animação tridimensional vista durante a Copa.
No Brasileirão, o caminho escolhido foi outro. A CBF contratou a Genius Sports, empresa que também fornece esse tipo de tecnologia para ligas como a Premier League, o Campeonato Mexicano e o Campeonato Belga. Em vez de utilizar um sensor na bola, ela aposta em um número muito maior de câmeras trabalhando ao mesmo tempo.
Mais câmeras para compensar a falta do chip
A primeira pergunta que muita gente faz é simples: se não existe um chip na bola, como o sistema sabe exatamente quando aconteceu o passe?
A resposta está na quantidade e na qualidade das imagens captadas.
Enquanto a tecnologia da Copa utilizava 16 câmeras, o sistema brasileiro trabalha com algo entre 28 e 32 equipamentos de alta resolução espalhados pelo estádio. Elas registram tudo em 4K e capturam até 100 quadros por segundo, o dobro da velocidade utilizada na Copa, que trabalhava com 50 quadros por segundo. Isso permite criar uma verdadeira réplica digital da partida.
Na prática, isso significa que o software consegue observar exatamente o movimento do pé do jogador, identificar quando ele entra em contato com a bola e comparar esse instante com a posição de todos os atletas em campo.
Segundo a Genius Sports, essa taxa elevada de captura elimina praticamente qualquer borrão nas imagens, permitindo determinar o momento do passe com precisão suficiente mesmo sem a ajuda de sensores eletrônicos.
Então por que a imagem parece menos completa?
Foi justamente essa diferença que chamou a atenção dos torcedores na estreia da tecnologia.
Na Copa do Mundo, a transmissão mostrava todo o processo: o instante do toque na bola, a posição dos jogadores e a animação em três dimensões explicando por que havia impedimento.
No Brasileirão, inicialmente apareceu apenas a reconstrução da jogada com as linhas e o destaque para a parte do corpo que colocou o atacante em posição irregular.
A ausência da imagem do momento do passe gerou muitas dúvidas nas redes sociais. Diversos torcedores chegaram a acreditar que a tecnologia brasileira era menos precisa.
Na realidade, o cálculo continua sendo realizado automaticamente. O que faltou foi apenas a representação gráfica desse momento para quem está assistindo em casa. Tanto que a própria CBF já confirmou que pretende incluir essa visualização nas próximas rodadas, aproximando a experiência do modelo adotado na Premier League.
Afinal, por que ele é chamado de “semiautomático”?
Essa talvez seja a maior curiosidade de todas.
Muita gente imagina que basta o computador detectar um impedimento para o gol ser automaticamente anulado.
Não é assim.
O sistema identifica sozinho a posição dos jogadores, calcula o instante do passe e gera a análise completa. Porém, antes da decisão ser oficializada, o árbitro de vídeo ainda precisa validar o resultado.
Isso acontece porque existem situações extremamente raras em que jogadores ficam parcialmente escondidos por outros atletas ou ocupam praticamente o mesmo espaço na imagem. Nessas ocasiões, o VAR pode conferir se o quadro selecionado corresponde exatamente ao momento do passe.
Segundo a CBF, isso não significa que os árbitros redesenham linhas ou alteram o resultado produzido pela tecnologia. Eles apenas confirmam se tudo foi capturado corretamente antes de comunicar a decisão ao árbitro em campo.
O sistema brasileiro é pior do que o da Copa?
Curiosamente, não.
Embora muita gente tenha associado a ausência do chip a uma perda de qualidade, especialistas explicam que existem diferentes formas de alcançar o mesmo nível de precisão.
O sensor dentro da bola facilita a identificação do momento do toque. Já a Genius Sports prefere compensar essa ausência utilizando um número maior de câmeras, resolução elevada e uma captura muito mais rápida das imagens.
Em outras palavras, uma tecnologia mede diretamente o toque na bola. A outra observa esse toque com tantos detalhes que consegue chegar praticamente à mesma conclusão.
As diferenças aparecem mais na apresentação das imagens do que propriamente na capacidade de detectar um impedimento.
Outro detalhe curioso é que a empresa responsável pelo sistema brasileiro promete entregar a análise em poucos segundos. Na rodada de estreia, as revisões variaram entre 33 e 64 segundos, tempo considerado bastante inferior ao das análises tradicionais feitas apenas com o VAR.
A tecnologia ainda deve evoluir
Assim como aconteceu com o VAR, o impedimento semiautomático dificilmente permanecerá igual pelos próximos anos.
A tendência é que as transmissões exibam animações cada vez mais didáticas, mostrando o instante do passe, a posição dos atletas e até reconstruções tridimensionais mais detalhadas para facilitar o entendimento do torcedor.
No fim das contas, o Brasileirão não recebeu uma versão “inferior” da tecnologia usada na Copa do Mundo. Recebeu uma solução diferente, baseada em outro conceito de captura de dados, mas desenvolvida para chegar ao mesmo objetivo: reduzir erros humanos e tornar as decisões de impedimento mais rápidas, precisas e transparentes.
