Trump diz que a Venezuela roubou o petróleo dos EUA. A história real é bem mais complexa

Renê Fraga
4 min de leitura

Principais destaques

  • A riqueza petrolífera da Venezuela começou em 1922 com uma das maiores descobertas de petróleo da história.
  • Ao longo do século 20, o país alternou períodos de prosperidade, controle estatal e colapso econômico.
  • A narrativa de que a Venezuela “roubou” o petróleo dos EUA ignora décadas de acordos, nacionalizações e disputas geopolíticas.

A afirmação de Donald Trump de que a Venezuela teria “roubado” o petróleo americano reacendeu um debate antigo, mas a trajetória real da indústria petrolífera venezuelana envolve descobertas históricas, acordos internacionais e decisões políticas que moldaram o país ao longo de mais de um século.

Tudo começou bem antes das disputas atuais. Em 1922, um poço chamado Los Barrosos-2 entrou em erupção no oeste da Venezuela, lançando petróleo a dezenas de metros de altura por vários dias.

O episódio marcou o início da transformação do país em uma potência energética global, com consequências profundas para sua economia, sociedade e relações internacionais.

O nascimento de uma potência do petróleo

Embora o petróleo já fosse conhecido desde a época da colonização espanhola, foi durante a Primeira Guerra Mundial que empresas estrangeiras passaram a investir pesado na região.

A explosão do poço em 1922 colocou a Venezuela no centro do mapa energético mundial.

Em poucas décadas, o país deixou de ser majoritariamente agrícola e se tornou o segundo maior produtor de petróleo do planeta.

Empresas internacionais dominaram o setor, enquanto o Estado venezuelano e a população local ficavam com uma fatia limitada dos lucros, cenário que alimentou pressões por mudanças.

Do controle estrangeiro à nacionalização

A partir dos anos 1940, a Venezuela começou a impor regras mais duras às petrolíferas, exigindo uma divisão maior dos ganhos.

Mesmo assim, o país seguiu como parceiro estratégico dos Estados Unidos, inclusive após se tornar membro fundador da OPEC em 1960.

Em 1976, o governo criou a estatal PDVSA, consolidando o controle nacional sobre o setor. Apesar disso, empresas americanas continuaram atuando no país, agora como sócias, e foram indenizadas pela perda de participação direta.

Falar em “roubo”, nesse contexto, não reflete a realidade dos acordos firmados na época.

Chávez, Maduro e o colapso da indústria

O cenário mudou radicalmente a partir de 1999, com a chegada de Hugo Chávez ao poder.

Ele ampliou o controle estatal, expulsou empresas estrangeiras e passou a usar a PDVSA como principal fonte de financiamento do governo e das Forças Armadas. A fuga de profissionais qualificados e a falta de investimentos corroeram a infraestrutura.

Após a morte de Chávez, Nicolás Maduro assumiu em meio à queda dos preços do petróleo, sanções internacionais e uma crise econômica sem precedentes. A produção despencou e hoje representa uma fração do que já foi no passado.

No fim das contas, a história do petróleo venezuelano não é a de um furto simples, mas de um relacionamento longo, marcado por interesses econômicos, decisões soberanas e erros de gestão. Entender esse percurso ajuda a explicar por que o tema segue tão sensível e politizado até hoje.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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