A bactéria que ninguém acreditava que pudesse viver no estômago: como a H. pylori foi descoberta

Renê Fraga
20 min de leitura

Principais destaques

  • A história da Helicobacter pylori começou muito antes dos anos 1980: bactérias semelhantes já haviam sido observadas no estômago no século XIX, mas foram praticamente ignoradas.
  • Em 1982, os médicos australianos Robin Warren e Barry Marshall conseguiram cultivar a bactéria e relacioná-la à gastrite, abrindo caminho para uma mudança radical na compreensão das úlceras.
  • A descoberta transformou o tratamento de uma doença que durante décadas foi associada principalmente ao excesso de ácido, ao estresse e ao estilo de vida.

Existe uma cena curiosa na história da medicina: durante décadas, pesquisadores olharam para o estômago humano e chegaram a enxergar bactérias. O problema é que quase ninguém acreditava que aquilo pudesse ser importante.

A ideia dominante era bastante convincente. O estômago produz ácido suficiente para criar um dos ambientes mais hostis do corpo humano. Parecia improvável que um microrganismo conseguisse permanecer ali por muito tempo, muito menos provocar uma doença.

Foi nesse cenário que surgiu uma das descobertas mais importantes da gastroenterologia.

No início dos anos 1980, o patologista australiano Robin Warren começou a observar pequenas bactérias curvas ou espiraladas nas amostras de tecido retiradas do estômago de pacientes. O detalhe que chamou sua atenção era ainda mais interessante: elas apareciam próximas de regiões inflamadas.

Quando o médico Barry Marshall passou a trabalhar com Warren, a dupla começou a investigar se aquelas bactérias poderiam estar relacionadas à gastrite e às úlceras.

A resposta acabaria mudando a medicina.

Antes da descoberta, a úlcera era vista de outra maneira

Para entender o impacto da descoberta, é preciso voltar algumas décadas.

As úlceras gástricas e duodenais eram problemas conhecidos e bastante comuns. A medicina sabia que o ácido do estômago tinha papel importante na formação das lesões, mas a explicação para o surgimento e a recorrência das úlceras era muito mais complicada.

Estresse, alimentação, hábitos de vida e produção excessiva de ácido estavam entre as explicações mais utilizadas.

A ideia de que uma bactéria poderia estar por trás do problema não era exatamente nova. O que faltava era uma evidência convincente.

E havia um obstáculo enorme: como uma bactéria sobreviveria em um lugar tão ácido?

A dificuldade não estava apenas em encontrar o microrganismo. Era necessário cultivá-lo, identificá-lo e demonstrar que ele tinha relação com a doença.

Esse detalhe é fundamental porque, antes de Warren e Marshall, outros pesquisadores já haviam relatado a presença de bactérias espiraladas no estômago.

A descoberta não começou em 1982

Uma das partes mais interessantes dessa história é justamente essa.

O primeiro relato conhecido de bactérias semelhantes às helicobactérias no estômago foi feito pelo pesquisador italiano Giulio Bizzozero, em 1893. Ao longo das décadas seguintes, outros cientistas também encontraram microrganismos com aparência semelhante.

Mas havia um problema.

Sem conseguir cultivar adequadamente essas bactérias, era difícil estudar suas características e provar que elas estavam relacionadas a alguma doença. Por isso, muitos daqueles relatos acabaram esquecidos ou tratados como uma curiosidade microscópica.

Uma revisão histórica publicada pelo NCBI descreve a descoberta de 1982 como o resultado de mais de um século de observações anteriores sobre bactérias espiraladas no estômago.

Ou seja, Warren e Marshall não encontraram algo que ninguém jamais tivesse visto.

Eles fizeram algo talvez ainda mais importante: conseguiram transformar uma observação antiga em uma hipótese que poderia ser testada.


O olhar de Robin Warren

Em Perth, na Austrália, Robin Warren trabalhava como patologista, examinando tecidos retirados de pacientes.

Foi durante esse trabalho que ele percebeu um padrão.

Nas lâminas examinadas ao microscópio, apareciam pequenas estruturas curvas ou espiraladas sobre a superfície da mucosa gástrica. Mais interessante ainda era a proximidade dessas estruturas com áreas que apresentavam inflamação.

Warren passou a suspeitar que aquilo não era simplesmente uma contaminação.

A observação era importante porque a inflamação do estômago, conhecida como gastrite, era uma condição bastante comum em pacientes com problemas ulcerosos.

O próximo passo seria descobrir se aqueles microrganismos podiam ser cultivados.

Foi aí que Barry Marshall entrou na história.

Marshall era um jovem médico interessado em gastroenterologia. A colaboração entre os dois juntou habilidades diferentes: Warren tinha a experiência de observar alterações microscópicas nos tecidos, enquanto Marshall ajudaria a investigar a bactéria e sua possível relação com os pacientes.

A dupla começou a coletar amostras durante exames de endoscopia.

E então aconteceu algo que parece pequeno, mas entrou para a história da medicina.

Um erro de laboratório que acabou ajudando a descoberta

Os pesquisadores estavam tentando cultivar a bactéria em laboratório.

O processo, porém, não era simples.

A bactéria precisava de condições específicas, incluindo uma atmosfera com pouco oxigênio. Além disso, os pesquisadores ainda não sabiam exatamente quanto tempo deveriam esperar para verificar se o microrganismo havia crescido.

Em uma das tentativas, as placas ficaram no incubador durante um período prolongado por causa do feriado da Páscoa.

Quando foram examinadas alguns dias depois, havia crescimento bacteriano.

O que parecia inicialmente um atraso no procedimento acabou sendo decisivo.

De acordo com o relato histórico de Marshall, o organismo foi finalmente cultivado a partir da biópsia do paciente número 35, depois que as culturas permaneceram no incubador durante o longo fim de semana.

Esse episódio resolveu uma das grandes dificuldades da pesquisa.

Agora, os cientistas tinham algo que podiam estudar em laboratório.

E isso mudava completamente o jogo.


De “bactéria estranha” a possível causa da gastrite

Depois de conseguir cultivar o organismo, Warren e Marshall passaram a analisar sua presença em diferentes pacientes.

O padrão ficava cada vez mais difícil de ignorar.

As bactérias apareciam associadas à inflamação da mucosa do estômago.

Em 1982, os pesquisadores apresentaram os resultados que relacionavam os organismos semelhantes a Campylobacter à gastrite e possivelmente às úlceras. O trabalho seria publicado posteriormente, e a descoberta começou a chamar atenção da comunidade científica.

Mas havia uma barreira.

Encontrar uma bactéria em pessoas doentes não significava automaticamente provar que ela era a causa da doença.

Ela poderia simplesmente estar aproveitando um ambiente que já estava alterado.

Essa era a grande questão que Marshall e Warren precisavam responder.

Por que a bactéria consegue sobreviver no estômago?

A resposta está em uma das características mais interessantes da H. pylori.

A bactéria produz uma enzima chamada urease. Ela participa de uma reação que gera compostos capazes de reduzir a acidez ao redor do microrganismo.

Isso ajuda a bactéria a sobreviver na camada de muco que reveste e protege o estômago.

Além disso, a H. pylori possui flagelos que ajudam sua movimentação. Em vez de simplesmente ficar exposta ao ácido presente no interior do estômago, ela consegue se deslocar pelo muco e permanecer próxima à superfície da mucosa.

É uma espécie de estratégia de sobrevivência microscópica.

O estômago continua sendo extremamente ácido, mas a bactéria encontra um pequeno espaço onde consegue se proteger melhor.

E foi justamente essa capacidade que tornou possível uma ideia que, durante muito tempo, parecia absurda: uma bactéria poderia viver no estômago por anos.


A medicina ainda não estava convencida

Hoje, pode parecer estranho imaginar que alguém questionasse a relação entre H. pylori e úlceras.

Na época, porém, a hipótese era considerada ousada.

O próprio Nobel descreveu a história como um caso em que os pesquisadores precisaram desafiar conceitos médicos predominantes. Em 2005, ao anunciar o prêmio para Warren e Marshall, o comitê destacou a persistência dos dois em enfrentar o conhecimento estabelecido.

A resistência fazia sentido dentro do conhecimento daquele período.

As úlceras eram tratadas principalmente como um problema relacionado ao ácido. Se uma bactéria estivesse envolvida, seria necessário rever uma parte significativa da explicação existente.

Marshall não queria apenas sugerir uma nova hipótese.

Ele queria testá-la.

E foi nesse momento que a história ganhou um dos episódios mais incomuns de toda a descoberta.

Marshall tomou a bactéria

Em uma tentativa de demonstrar que a H. pylori poderia causar gastrite, Barry Marshall decidiu ingerir uma preparação contendo a bactéria.

O experimento foi realizado em seu próprio organismo.

Depois, ele desenvolveu sinais de gastrite.

O episódio ficou famoso porque demonstrava, de maneira bastante pessoal, que a bactéria podia colonizar o estômago e provocar inflamação. O próprio Marshall descreveu posteriormente esse episódio em sua palestra do Nobel.

É importante fazer uma ressalva: esse experimento pessoal não foi, sozinho, a prova definitiva da relação entre a bactéria e as úlceras.

A conclusão científica veio do conjunto de evidências acumuladas por diferentes estudos, incluindo análises clínicas, pesquisas epidemiológicas, estudos de tratamento e observações em pacientes.

Mas o episódio ajudou a mostrar até onde Marshall estava disposto a ir para defender uma hipótese que muitos ainda consideravam improvável.


A bactéria ganhou um nome

O microrganismo descoberto inicialmente recebeu nomes relacionados ao gênero Campylobacter, porque suas características lembravam as bactérias daquele grupo.

Com o avanço das pesquisas, porém, os cientistas perceberam que havia diferenças suficientes para justificar a criação de um novo gênero.

Assim surgiu o nome Helicobacter pylori.

“Helico” faz referência ao formato helicoidal ou espiralado, enquanto “pylori” está relacionado ao piloro, região localizada na saída do estômago.

O nome acabou se tornando conhecido mundialmente.

E a pesquisa continuou mostrando que a presença da bactéria não era apenas uma curiosidade.

Ela estava relacionada a uma parcela enorme dos casos de gastrite e de úlcera.


A grande virada: antibióticos entram na história

Se a úlcera fosse causada ou mantida por uma bactéria, havia uma consequência óbvia.

Era possível tentar eliminá-la.

Essa mudança parecia simples, mas representava uma verdadeira revolução.

Antes da descoberta, medicamentos que reduziam a produção de ácido podiam ajudar o paciente a cicatrizar a lesão. O problema é que, se a causa persistisse, a úlcera poderia voltar.

Com a identificação da H. pylori, tornou-se possível atacar a infecção.

A combinação de antibióticos com medicamentos que diminuem a acidez passou a ser utilizada para erradicar a bactéria.

O resultado foi impressionante.

Segundo o Nobel, a descoberta fez com que a doença ulcerosa péptica deixasse de ser vista como uma condição crônica e frequentemente incapacitante para se tornar uma doença que, em muitos casos, pode ser curada de maneira permanente.

O impacto foi ainda mais evidente nas úlceras duodenais. O Nobel informa que a H. pylori é responsável por mais de 90% das úlceras duodenais e por até 80% das úlceras gástricas.

Uma mudança que também reduziu a necessidade de cirurgia

Antes dessa virada, pacientes com úlceras recorrentes podiam passar por tratamentos prolongados e, em situações graves, até por procedimentos cirúrgicos.

A possibilidade de eliminar a infecção mudou esse cenário.

Ao tratar a causa, e não apenas as consequências da lesão, os médicos passaram a ter uma ferramenta muito mais poderosa contra a recorrência das úlceras.

A descoberta também ajudou a explicar uma série de observações que antes pareciam desconectadas.

Gastrite.

Úlcera.

Infecção persistente.

E, posteriormente, câncer gástrico.

Tudo começou a fazer parte de uma mesma história biológica.


E a descoberta foi muito maior do que as úlceras

A H. pylori não está relacionada apenas à gastrite e às úlceras.

Com o avanço das pesquisas, ficou estabelecido que a infecção crônica também está associada a um risco maior de câncer de estômago e de linfoma gástrico do tipo MALT.

O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos destaca a infecção por H. pylori como a principal causa conhecida de câncer gástrico e aponta a importância da descoberta para estratégias de prevenção da doença.

Isso tornou a descoberta ainda mais significativa.

O que começou com algumas bactérias estranhas observadas em uma lâmina de microscópio acabou ajudando a explicar um dos principais fatores de risco para um tipo de câncer.

A ciência passou a enxergar o estômago de outra maneira.

Mais da metade do mundo pode carregar a bactéria

Outro detalhe surpreendente é a frequência da infecção.

O NIDDK, órgão do governo dos Estados Unidos dedicado às doenças digestivas, informa que mais da metade da população mundial pode estar infectada pela H. pylori.

Isso não significa que todas essas pessoas terão úlceras ou câncer.

Na realidade, muitas pessoas infectadas não apresentam sintomas.

A relação entre infecção, inflamação e doença é influenciada por diferentes fatores, incluindo características do próprio organismo, da bactéria e do ambiente.

É justamente por isso que a história da H. pylori continua sendo estudada.


O que torna essa descoberta tão curiosa?

Talvez o aspecto mais fascinante dessa história seja que a bactéria não surgiu repentinamente no laboratório de Warren e Marshall.

Ela já estava sendo observada havia mais de um século.

O que faltava era alguém perceber que aquelas pequenas estruturas poderiam representar uma pista importante.

A história mostra como a ciência nem sempre avança porque alguém encontra uma resposta imediatamente.

Às vezes, ela avança porque alguém decide olhar novamente para uma pergunta antiga.

No caso da H. pylori, essa insistência foi fundamental.

Robin Warren percebeu a associação entre as bactérias e a inflamação.

Barry Marshall ajudou a transformar a observação em uma hipótese testável.

Os dois conseguiram cultivar o organismo.

Depois, outros pesquisadores reproduziram os resultados, estudaram a infecção e demonstraram sua relação com gastrite e úlceras.

A hipótese que parecia estranha tornou-se conhecimento médico.


O Nobel veio mais de 20 anos depois

A descoberta ocorreu no início dos anos 1980.

O reconhecimento máximo da ciência veio apenas em 2005.

Barry Marshall e Robin Warren receberam conjuntamente o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina pela descoberta da Helicobacter pylori e pela demonstração de seu papel na gastrite e na doença ulcerosa péptica.

Mais de duas décadas separam a descoberta do prêmio.

Esse intervalo ajuda a mostrar o tamanho da mudança provocada pela pesquisa.

Não bastava encontrar a bactéria.

Foi necessário convencer a comunidade científica, reproduzir os resultados, estabelecer a relação com a doença e demonstrar que eliminar o microrganismo poderia mudar o curso das úlceras.

A própria história do Nobel resume a transformação de forma bastante clara: uma doença que durante muito tempo era considerada crônica passou a poder ser curada em muitos casos graças à compreensão de sua origem infecciosa.


Uma descoberta feita olhando para o que todos já tinham visto

A grande surpresa da história da H. pylori não é apenas que uma bactéria consiga sobreviver no estômago.

É que pesquisadores já haviam observado organismos semelhantes décadas antes, mas não conseguiram demonstrar sua importância.

Warren e Marshall transformaram uma imagem no microscópio em uma pergunta científica. E essa pergunta acabou mudando o tratamento das úlceras em todo o mundo.

Da lâmina de microscópio a uma revolução na medicina

A história da H. pylori é um exemplo raro de como uma descoberta pode mudar completamente uma área da medicina.

Antes dela, uma úlcera recorrente podia significar anos de tratamento, preocupação e, em alguns casos, cirurgia.

Depois dela, surgiu uma explicação diferente: uma infecção persistente podia estar por trás do problema.

A consequência foi uma mudança de estratégia.

Em vez de apenas controlar o ácido e esperar que a lesão cicatrizasse, tornou-se possível procurar e eliminar a bactéria.

E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais curiosa dessa história.

A medicina não mudou porque alguém inventou uma tecnologia extraordinária ou construiu uma máquina revolucionária.

Mudou porque dois médicos prestaram atenção em algo pequeno demais para ser visto a olho nu.

Uma bactéria espiralada.

Uma inflamação.

Uma possível conexão.

E uma pergunta que parecia improvável:

e se essas duas coisas estiverem relacionadas?

A resposta levou mais de duas décadas para ser completamente reconhecida, rendeu um Nobel e transformou para sempre a maneira como o mundo entende as doenças do estômago.

No fim, a história da H. pylori mostra uma das características mais interessantes da ciência: às vezes, uma grande revolução começa com alguém simplesmente decidindo não ignorar aquilo que está diante dos seus olhos.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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