A Lua pode provocar terremotos? A resposta é mais surpreendente do que parece

Renê Fraga
16 min de leitura

Principais destaques

  • 🌕 A gravidade da Lua não apenas movimenta os oceanos. Ela também provoca pequenas deformações na parte sólida da Terra.
  • 🌍 Em algumas falhas geológicas, essas mudanças de tensão podem ajudar a desencadear um terremoto que já estava próximo de acontecer.
  • 💥 Isso não significa que a Lua seja a responsável pelos terremotos. A maior parte da energia vem das forças tectônicas, e a relação entre marés e terremotos ainda não aparece de forma consistente em todos os lugares.

A Lua parece tranquila quando observada no céu. Todas as noites, ela muda de posição, passa por suas fases e ilumina a paisagem de maneiras diferentes. Mas, apesar dessa aparência pacífica, nosso satélite está constantemente exercendo uma influência gravitacional sobre a Terra.

É fácil perceber um dos efeitos mais conhecidos dessa força nos oceanos. As marés sobem e descem continuamente, acompanhando principalmente a influência gravitacional da Lua e, em menor escala, do Sol.

O que muita gente não imagina é que a Terra sólida também responde a essa atração.

A superfície do planeta não é completamente imóvel. As rochas podem sofrer pequenas deformações causadas pelas forças de maré, em um fenômeno conhecido como maré terrestre. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, a superfície sólida pode se deslocar alguns centímetros em resposta a essas forças.

Esse movimento é minúsculo para nós. Ninguém consegue olhar para uma montanha e perceber que ela está sendo levemente deformada pela passagem das marés. Instrumentos científicos, porém, conseguem medir essas alterações.

E é justamente aí que surge uma pergunta fascinante: se a Lua consegue movimentar tanta água e deformar, ainda que discretamente, a própria crosta terrestre, será que também pode influenciar um terremoto?

A resposta é: em determinadas condições, talvez sim. Mas de uma maneira muito diferente do que a expressão “a Lua causa terremotos” pode sugerir.

A Lua não cria a energia de um terremoto

Para entender a relação, primeiro é preciso imaginar o que acontece muito abaixo dos nossos pés.

A superfície da Terra é dividida em grandes placas tectônicas que se movimentam lentamente. Em algumas regiões, essas placas se afastam, em outras colidem e, em determinadas áreas, uma pode mergulhar por baixo da outra.

Esse movimento não acontece de maneira perfeitamente suave. As rochas podem ficar presas umas às outras durante muito tempo enquanto as forças tectônicas continuam acumulando tensão.

É como se duas superfícies extremamente resistentes estivessem sendo empurradas em direções diferentes, mas permanecessem travadas pelo atrito.

A tensão continua aumentando.

Em algum momento, a resistência da falha pode ser superada. As rochas deslizam rapidamente e parte da energia acumulada é liberada em forma de ondas sísmicas.

É isso que produz um terremoto.

Portanto, a Lua não precisa ser colocada no lugar das placas tectônicas nessa história. Ela entra em uma etapa muito mais sutil.

Imagine uma falha que já esteja próxima de romper. Uma pequena alteração nas forças que atuam sobre ela pode, em determinadas circunstâncias, mudar o instante em que ocorre o deslizamento.

A gravidade da Lua pode fornecer essa pequena alteração.

É por isso que os cientistas costumam falar em gatilho, e não em causa principal.

A diferença é enorme.

Uma pessoa que empurra um dominó que já está inclinado pode fazer com que ele caia naquele segundo. Mas o empurrão não foi responsável por construir toda a estrutura que levou o dominó até aquela situação.

Com uma falha geológica, a ideia é parecida. As placas tectônicas acumulam a maior parte da tensão durante longos períodos. A influência das marés pode, em alguns casos específicos, ser suficiente para alterar o momento do rompimento.

O que a Lua cheia tem a ver com isso?

É aqui que a história fica ainda mais curiosa.

Durante a Lua cheia e a Lua nova, Sol, Terra e Lua ficam aproximadamente alinhados. Nesses períodos, os efeitos gravitacionais associados às marés se combinam e produzem as chamadas marés de sizígia, que são mais intensas.

Isso ajuda a explicar por que pesquisadores investigam há décadas uma possível relação entre essas fases lunares e a atividade sísmica.

O USGS afirma que alguns estudos encontraram correlações entre as marés terrestres e determinados tipos de terremotos. O efeito parece ser mais relevante em situações específicas, como falhas rasas de empurrão próximas às bordas dos continentes e regiões de subducção, onde uma placa tectônica mergulha sob outra.

Nessas regiões, as marés oceânicas também podem ser importantes.

Quando a quantidade de água sobre uma determinada área aumenta, o peso exercido sobre o fundo do oceano muda. Essa variação altera as pressões que atuam sobre as rochas próximas às zonas de falha.

É uma mudança relativamente pequena diante das enormes forças tectônicas existentes no planeta. Mas uma falha que já esteja em uma situação extremamente delicada pode responder de maneira diferente de outra que ainda esteja longe do ponto de ruptura.

Isso ajuda a explicar por que não existe uma regra simples como “Lua cheia significa terremoto”.

Se fosse assim, terremotos seriam muito mais fáceis de prever. Bastaria observar o calendário lunar.

Não é o que acontece.

Um dos principais problemas é justamente a diferença entre uma possibilidade física e um efeito estatisticamente forte o suficiente para ser usado como previsão.

Alguns estudos encontraram sinais de influência das marés. Outros não encontraram uma relação significativa quando analisaram grandes catálogos de terremotos.

Um trabalho clássico, por exemplo, analisou mais de 13 mil terremotos próximos às falhas de San Andreas e Calaveras, na Califórnia, e não encontrou evidência de que a distribuição dos eventos estivesse relacionada às tensões provocadas pelas marés terrestres.

Isso mostra como o fenômeno é mais complicado do que parece.

Cientistas ainda encontram pistas dessa influência

Apesar das limitações, a hipótese não foi simplesmente abandonada.

Pesquisas mais recentes continuam encontrando situações em que a atividade sísmica parece responder às marés.

Um estudo publicado em 2025, por exemplo, analisou terremotos de baixa frequência próximos a Parkfield, na Califórnia, uma região importante para o estudo da falha de San Andreas. Os pesquisadores encontraram uma forte relação entre a ocorrência desses eventos e as marés da Terra sólida. A resposta, porém, variava de acordo com a frequência da força de maré e com as propriedades das diferentes partes da falha.

Esse tipo de descoberta é importante porque mostra que a pergunta talvez não seja simplesmente “a Lua provoca terremotos?”.

Uma pergunta melhor seria:

Quais tipos de falhas são sensíveis às pequenas mudanças de tensão provocadas pelas marés?

Essa mudança de perspectiva é fundamental.

As falhas geológicas não são todas iguais. Elas estão em diferentes profundidades, possuem diferentes tipos de rocha, diferentes níveis de pressão e diferentes condições de atrito.

Algumas podem ser muito sensíveis a pequenas mudanças de tensão. Outras podem simplesmente ignorar completamente a influência das marés.

É semelhante ao que acontece com uma porta.

Uma porta perfeitamente fechada e travada dificilmente vai se mover porque alguém encostou levemente nela. Já uma porta que está quase fechando, com a dobradiça solta e praticamente sem resistência, pode se movimentar com uma força muito pequena.

Uma falha geológica próxima de romper pode estar em uma situação parecida.

E as evidências que não encontram relação?

Elas são igualmente importantes.

Em 2025, pesquisadores do USGS analisaram cerca de 110 mil terremotos ocorridos em Oklahoma e Kansas entre 2011 e 2018 para investigar se as pequenas tensões provocadas pelas marés estavam desencadeando terremotos induzidos nessa região.

O resultado geral não mostrou uma evidência significativa de que as marés estivessem provocando esses terremotos.

Os pesquisadores encontraram sinais localizados em algumas áreas e períodos, mas a quantidade ficou próxima do que poderia ser esperado por acaso em uma análise estatística ampla. A conclusão foi que não havia evidência de um efeito significativo das marés em toda a região estudada.

Isso é particularmente interessante porque mostra que mesmo uma região com muitas falhas sob tensão não necessariamente responde de maneira perceptível à influência lunar.

Em outras palavras, a Lua pode ter capacidade física de alterar as tensões na Terra, mas isso não significa que essa alteração seja suficiente para provocar terremotos de forma generalizada.

Então uma Lua cheia aumenta o risco de terremoto?

Não da maneira como muitas histórias na internet sugerem.

É possível encontrar estudos indicando uma associação entre períodos de maré mais forte e alguns tipos de terremotos. Também existem pesquisas que não encontraram essa relação de maneira estatisticamente significativa.

Além disso, mesmo quando existe um aumento relativo de probabilidade em determinadas condições, ele não transforma um terremoto em algo previsível.

O próprio USGS destaca que, quando uma relação entre marés e terremotos é observada, o aumento relativo da probabilidade pode ser pequeno diante da probabilidade absoluta de um terremoto ocorrer em determinado lugar.

Isso significa que olhar para a Lua cheia no calendário não permite dizer que um terremoto está prestes a acontecer.

Também não há motivo científico para acreditar que uma Lua cheia comum seja capaz de gerar um terremoto em uma região que não esteja sob as condições geológicas necessárias.

A Lua pode participar do “timing” de alguns eventos, mas não funciona como um interruptor sísmico.

E os eclipses? Eles são diferentes?

Essa é outra curiosidade que costuma aparecer quando o assunto é discutido.

Durante um eclipse solar, a Lua passa entre a Terra e o Sol. Geometricamente, isso cria um alinhamento muito próximo entre os três corpos.

Mas isso não transforma o eclipse em um fenômeno sísmico especial.

Segundo o USGS, eclipses solares e lunares representam casos particulares de Lua nova ou Lua cheia, respectivamente, mas não produzem um efeito de maré fundamentalmente diferente daquele já associado a essas fases.

Portanto, não existe uma razão científica para considerar um eclipse como um “gatilho especial” capaz de provocar terremotos simplesmente porque o Sol e a Lua estão alinhados.

O que importa é a força de maré e a maneira como ela interage com uma determinada falha.

A parte mais impressionante é que a Terra realmente se move

Talvez a maior curiosidade dessa história nem seja o possível efeito sobre os terremotos.

É o fato de que a Lua está constantemente deformando o planeta.

Quando pensamos em maré, normalmente imaginamos praias, oceanos e água avançando e recuando na areia. Mas a própria Terra sólida também responde à atração gravitacional.

A diferença é que a rocha é muito mais rígida do que a água, então o movimento é pequeno e invisível aos nossos sentidos.

Instrumentos extremamente sensíveis conseguem detectar essas deformações.

Isso significa que, enquanto caminhamos, dormimos ou observamos a Lua no céu, o planeta inteiro está passando por pequenas mudanças relacionadas às forças gravitacionais do sistema Terra, Lua e Sol.

É uma lembrança curiosa de que a Terra não é um bloco completamente imóvel.

Mesmo as rochas, que parecem absolutamente rígidas, podem se deformar quando submetidas a forças suficientemente grandes.

E, em uma escala geológica, pequenas mudanças podem ter consequências interessantes quando acontecem sobre uma falha que já está próxima do limite.

A Lua pode ser o último empurrão, mas não o responsável pela queda

No fim, a resposta para a pergunta inicial precisa ser cuidadosamente escolhida.

A Lua não causa terremotos da mesma maneira que as placas tectônicas causam.

A energia liberada por um grande terremoto é resultado principalmente dos processos tectônicos que acumulam tensão nas falhas durante anos, décadas ou até períodos muito mais longos.

A gravidade da Lua é uma influência adicional.

Em determinadas condições, essa influência pode modificar as tensões que atuam sobre uma falha e, segundo algumas pesquisas, ajudar a antecipar certos eventos sísmicos. Em outros locais, estudos não encontram evidências significativas dessa relação.

É justamente essa combinação de resultados que torna o tema tão interessante.

A ciência não está diante de uma simples resposta de “sim” ou “não”. Ela está tentando descobrir quando, onde e por que algumas falhas parecem ser sensíveis às marés enquanto outras não.

Por enquanto, uma boa maneira de imaginar tudo isso é pensar em uma corda extremamente esticada.

As placas tectônicas são responsáveis por esticar a corda até o limite. A Lua não é quem aplica a maior força. Mas, se a corda já estiver prestes a arrebentar, uma pequena mudança adicional pode fazer diferença no instante exato da ruptura.

Assim, quando você olhar para a Lua cheia e pensar que ela está apenas iluminando o céu, vale lembrar de uma coisa: a gravidade dela também está puxando a Terra, movimentando os oceanos, deformando discretamente as rochas e, em circunstâncias muito específicas, talvez ajudando a decidir quando uma falha geológica finalmente vai ceder.

E isso é muito mais curioso do que simplesmente dizer que “a Lua provoca terremotos”.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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