Azeite extravirgem que é virgem? Entenda por que isso está acontecendo no Brasil e quais marcas aparecem nos laudos

Renê Fraga
18 min de leitura

Principais destaques

  • Uma nova investigação sobre a qualidade dos azeites vendidos no Brasil colocou novamente o produto no centro das atenções. Laudos citados em uma ação judicial apontam que alguns rótulos comercializados como extravirgem apresentaram características compatíveis com azeite virgem, uma categoria inferior.
  • Entre as marcas mencionadas nos resultados divulgados estão Andorinha, Gallo, Borges, Gomes da Costa, Filippo Berio e Carrefour. Também aparecem Costa D’Oro e Terras de Camões, associadas a resultados ainda mais graves em determinados produtos, classificados como azeite lampante.
  • A situação não significa que todas essas marcas estejam fraudando seus produtos ou que todos os lotes sejam irregulares. O resultado de uma análise está relacionado à amostra ou ao lote analisado. Além disso, ser classificado como virgem não é a mesma coisa que ter óleo de soja ou outro óleo vegetal misturado.

Extravirgem e virgem parecem a mesma coisa, mas não são

Para quem olha rapidamente a prateleira do supermercado, a diferença pode parecer apenas uma palavra no rótulo. Mas “extravirgem” e “virgem” são categorias diferentes dentro da classificação dos azeites.

Os dois são obtidos diretamente das azeitonas por processos exclusivamente mecânicos ou físicos, sem que o produto seja submetido a processos de refino. O que muda é principalmente o nível de qualidade determinado por análises químicas e avaliação sensorial.

O azeite extravirgem ocupa o topo dessa classificação. Entre os critérios utilizados está o limite de acidez livre, que deve ser de até 0,8%, além de outros parâmetros químicos e da ausência de defeitos sensoriais relevantes.

No azeite virgem, o limite de acidez livre pode chegar a 2%, mas a acidez sozinha não determina a classificação. O produto também precisa atender a outros parâmetros de qualidade e passar pela avaliação sensorial correspondente.

Isso ajuda a entender uma situação que parece estranha para o consumidor: um azeite pode continuar sendo genuinamente produzido a partir de azeitonas e, ainda assim, não ser considerado extravirgem.

É como se o produto estivesse dentro da mesma “família”, mas não alcançasse o nível de qualidade exigido para ocupar a categoria mais alta.

E existe uma razão para essa diferença importar tanto. O consumidor que compra uma garrafa identificada como extravirgem está pagando por uma categoria específica. Se uma análise demonstra que aquele produto não atende aos requisitos para essa classificação, a informação do rótulo deixa de corresponder à qualidade encontrada no laboratório.

Então por que um azeite extravirgem pode acabar classificado como virgem?

Essa é uma das partes mais interessantes da história.

O azeite é um produto relativamente delicado. Depois que é produzido, sua qualidade pode ser afetada por fatores como luz, calor, oxigênio, tempo de armazenamento e condições de transporte.

Isso significa que não basta produzir um azeite de excelente qualidade. É preciso preservar suas características durante toda a cadeia até que ele chegue ao consumidor.

A exposição prolongada ao calor e à luz, por exemplo, acelera processos de oxidação. Com o tempo, o azeite pode perder atributos positivos e desenvolver características que prejudicam sua classificação sensorial.

Também existe a questão da matéria-prima. A qualidade das azeitonas, o momento da colheita, as condições climáticas, o intervalo entre a colheita e a extração e o próprio processo de produção interferem no resultado final.

Por isso, a classificação de um azeite não deve ser entendida como uma característica imutável simplesmente porque apareceu no rótulo.

Um produto pode ter sido comercializado como extravirgem, mas uma análise posterior identificar que a amostra não apresenta mais as características necessárias para permanecer nessa categoria.

Isso, porém, precisa ser diferenciado de uma fraude deliberada.

Se um laboratório encontra apenas características de uma categoria inferior, a situação é uma. Se encontra óleo de soja, milho, girassol ou outro óleo vegetal misturado ao produto que deveria ser exclusivamente azeite, estamos diante de outro problema.

E é justamente essa segunda situação que tem levado a recolhimentos oficiais recentes no Brasil.

As marcas que apareceram na investigação recente

Uma investigação que ganhou repercussão no início de agosto de 2026 apresentou resultados de análises envolvendo diversas marcas comercializadas no país.

Segundo os laudos divulgados no contexto da ação, produtos vendidos como extravirgens de marcas como Andorinha, Gallo, Borges, Gomes da Costa, Filippo Berio e Carrefour foram apontados como compatíveis com a categoria de azeite virgem.

Também foram citadas Costa D’Oro e Terras de Camões, cujos produtos analisados teriam apresentado classificação de azeite lampante.

Aqui é necessário fazer uma ressalva importante.

A divulgação desses resultados não significa que todas as garrafas dessas marcas sejam inadequadas. Muito menos que uma marca inteira possa ser considerada fraudulenta com base em uma amostra.

Uma marca pode comercializar diferentes produtos, lotes, origens e partidas de produção. O que um laudo demonstra é o resultado daquela amostra analisada, dentro das condições e dos critérios utilizados pelo laboratório.

Esse cuidado é ainda mais importante porque alguns dos nomes envolvidos são marcas muito conhecidas e vendidas há anos no Brasil.

Em outras palavras: não é correto transformar um resultado laboratorial de determinado produto ou lote em uma acusação contra toda a marca sem evidências adicionais.

A repercussão, entretanto, mostra como o consumidor tem dificuldade para saber se aquilo que está escrito na embalagem corresponde exatamente ao que existe dentro da garrafa.

O problema fica mais sério quando aparecem outros óleos

Imagine duas situações.

Na primeira, um azeite vendido como extravirgem apresenta características que fazem o laboratório classificá-lo como virgem.

Na segunda, o produto vendido como extravirgem contém óleo vegetal que não deveria fazer parte da composição.

Os dois casos são muito diferentes.

No primeiro, a questão principal é a classificação de qualidade.

No segundo, existe adulteração da composição.

O Ministério da Agricultura tem realizado operações específicas para identificar esse tipo de fraude. Em maio de 2026, por exemplo, o Mapa alertou para o azeite extravirgem San Paolo, lote 260289, depois que análises oficiais identificaram mistura com outros óleos vegetais. O produto foi considerado desclassificado e impróprio para consumo humano, e houve determinação de recolhimento.

Outro caso recente envolveu a marca Royal.

Em março de 2026, a Anvisa determinou o recolhimento do lote 255001 do azeite de oliva extravirgem Royal. Segundo a agência, análises laboratoriais oficiais confirmaram que o produto continha outros óleos vegetais e não atendia aos padrões exigidos para a categoria.

Nesse caso, portanto, não estamos falando simplesmente de um extravirgem que deveria ser chamado de virgem.

O problema apontado pelas autoridades foi a presença de outros óleos na composição.

E isso não começou agora

Os casos recentes podem dar a impressão de que o problema surgiu em 2026, mas o histórico de fiscalização mostra que as autoridades brasileiras acompanham fraudes no setor há anos.

O próprio Mapa afirma que o azeite está entre os alimentos mais fraudados do mundo. Em operações anteriores, foram encontrados produtos com outros óleos vegetais e mercadorias que não atendiam aos padrões estabelecidos para serem comercializadas como azeite de oliva.

Em fevereiro de 2025, o Mapa divulgou outro alerta envolvendo duas marcas de azeite consideradas desclassificadas por fraude. Segundo o órgão, análises realizadas pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária confirmaram a presença de outros óleos vegetais. A ação resultou no recolhimento de 30.990 litros de produto.

Em junho do mesmo ano, o ministério também divulgou um alerta envolvendo oito marcas consideradas desclassificadas por fraude após análises laboratoriais.

E o problema não ficou restrito às apreensões.

Em julho de 2025, o Mapa acompanhou a destinação final de 3.925 litros de azeite extravirgem da marca Espanhol Colonial, pertencentes ao lote 015. O produto havia sido considerado impróprio para consumo humano e foi encaminhado para reaproveitamento na produção de biocombustível.

Ou seja, existe uma sequência de fiscalizações que mostra que o mercado brasileiro vem sendo monitorado de forma contínua.

O governo está usando até tecnologia para encontrar as fraudes

Uma das novidades mais curiosas da fiscalização de 2026 é a utilização de tecnologia de infravermelho.

Em maio, o Mapa realizou uma operação em quatro grandes redes atacadistas do Distrito Federal utilizando um equipamento portátil de Espectroscopia no Infravermelho Médio, conhecido pela sigla MIR.

Na prática, a tecnologia funciona como uma espécie de scanner químico. O equipamento consegue analisar rapidamente uma amostra e apontar indícios de adulteração, inclusive possíveis misturas com óleos vegetais de menor valor comercial.

Durante aquela operação, os fiscais analisaram 45 amostras diretamente nas gôndolas dos estabelecimentos.

A tecnologia não elimina a necessidade das análises laboratoriais oficiais, mas pode ajudar a fiscalização a identificar rapidamente quais produtos precisam ser investigados com maior profundidade.

É uma mudança importante porque o consumidor normalmente não tem como descobrir uma fraude apenas olhando para a garrafa.

Por que é tão difícil descobrir um azeite ruim em casa?

Essa talvez seja a parte mais frustrante para quem compra azeite.

Muita gente tenta identificar a qualidade pela cor, pelo cheiro ou pelo sabor. Só que esses sinais não são suficientes para determinar a classificação oficial.

Um azeite pode ter uma aparência bonita e ainda assim não atender a todos os critérios necessários para ser extravirgem.

Da mesma forma, a acidez indicada no rótulo não conta toda a história. Ela é apenas um dos parâmetros utilizados na classificação.

O processo oficial envolve análises químicas e avaliação sensorial. O Mapa mantém estruturas laboratoriais especializadas justamente porque determinar a qualidade de um azeite exige muito mais do que simplesmente provar o produto.

Isso também explica por que vídeos de pessoas provando azeites e dizendo “esse é falso” precisam ser vistos com cautela.

Uma pessoa pode perceber defeitos sensoriais, mas isso não equivale a uma análise laboratorial oficial. E o contrário também é verdadeiro: um azeite pode parecer agradável para alguém e ainda assim não cumprir todos os requisitos técnicos de determinada categoria.

O consumidor está pagando por uma promessa

A grande questão por trás de toda essa discussão é bastante simples.

Quando alguém compra uma garrafa de extravirgem, não está comprando apenas um líquido de oliva.

Está comprando uma classificação de qualidade.

A palavra “extravirgem” informa ao consumidor que aquele produto atende a um conjunto específico de requisitos. Por isso, quando uma análise indica que uma amostra deveria ser classificada como virgem, existe uma diferença relevante entre o que o consumidor esperava comprar e o resultado encontrado.

E isso ajuda a explicar por que a discussão ganhou tanta força nas redes sociais.

Nos últimos dias, consumidores passaram a compartilhar listas de marcas e a questionar quais produtos ainda poderiam ser considerados confiáveis. A repercussão foi grande justamente porque nomes populares, encontrados facilmente em supermercados, apareceram entre os produtos citados nos laudos divulgados.

Mas existe um perigo nessa reação: transformar uma investigação técnica em uma lista definitiva de “marcas boas” e “marcas ruins”.

Não é tão simples.

Como escolher melhor o azeite no supermercado?

O consumidor não consegue reproduzir um laboratório dentro de casa, mas pode adotar alguns cuidados.

Um deles é observar a origem, o lote, a data de fabricação ou de envase e a validade, sempre que essas informações estiverem disponíveis.

Também vale prestar atenção à forma de armazenamento. O azeite é sensível à luz e ao calor, portanto deixar a garrafa exposta durante muito tempo em locais quentes ou muito iluminados não ajuda a preservar sua qualidade.

Outro ponto é não confundir preço com garantia absoluta.

Um azeite caro não está automaticamente livre de problemas, assim como um azeite mais barato não é necessariamente fraudado.

A fiscalização recente deixa isso bastante evidente: a qualidade precisa ser comprovada por critérios técnicos.

E, principalmente, quando houver um alerta oficial de recolhimento, o consumidor deve verificar se possui exatamente a marca e o lote mencionados pela autoridade. Não é necessário entrar em pânico e descartar qualquer produto da mesma marca.

O que fazer se você tiver um lote recolhido?

Nesse caso, a recomendação é simples: não consuma o produto.

As autoridades costumam indicar marca, lote e outras informações que permitem identificar exatamente qual produto está sob alerta.

Foi o que aconteceu com o Royal em 2026. A Anvisa especificou o lote 255001 e proibiu comercialização, distribuição, importação, propaganda e consumo daquele produto.

O mesmo ocorreu com o San Paolo, cujo lote 260289 foi alvo de recolhimento após a identificação de outros óleos vegetais.

Essa diferença entre marca e lote é fundamental.

Se uma determinada garrafa não pertence ao lote envolvido no alerta, não se deve automaticamente concluir que ela apresenta o mesmo problema.

Afinal, extravirgem que virou virgem é fraude?

A resposta mais honesta é: depende do motivo e do que foi encontrado.

Se uma análise demonstra que um produto não atende aos critérios para ser chamado de extravirgem e deveria ser classificado como virgem, existe uma questão de conformidade da classificação e da informação oferecida ao consumidor.

Mas isso não permite afirmar automaticamente que houve mistura proposital com óleo de soja.

Quando as análises encontram outros óleos vegetais, a situação é diferente. É justamente esse tipo de adulteração que aparece em vários dos alertas recentes do Mapa e da Anvisa.

Por isso, a frase “meu azeite extravirgem era virgem” pode soar assustadora, mas tecnicamente ela não significa a mesma coisa que “me venderam óleo de soja como azeite”.

São problemas diferentes e precisam ser tratados como tal.

O mais curioso é que o rótulo não conta toda a história

Talvez essa seja a principal lição dessa história.

A garrafa pode parecer perfeita. A marca pode ser conhecida. O preço pode ser alto. O rótulo pode dizer “extravirgem”.

Ainda assim, somente uma análise adequada consegue confirmar se aquele produto realmente cumpre todos os requisitos da categoria.

E isso explica por que a fiscalização continua sendo tão importante.

Em 2026, o Brasil não está apenas recolhendo produtos depois que chegam às prateleiras. O Mapa também vem testando novas ferramentas para identificar possíveis adulterações mais rapidamente, enquanto Anvisa e órgãos estaduais atuam quando são identificados riscos ou irregularidades.

Para quem está no supermercado, fica uma regra simples: não confunda extravirgem com virgem, não confunda virgem com azeite fraudado e, principalmente, não confie apenas na aparência da garrafa.

O que existe dentro dela é muito mais complicado do que parece.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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