Asteroide que exterminou os dinossauros era um dos mais raros do Sistema Solar, revela estudo inédito

Renê Fraga
8 min de leitura

Principais destaques

  • Cientistas identificaram que o asteroide responsável pela extinção dos dinossauros era um raro condrito CO, um dos tipos mais primitivos de rocha espacial.
  • A descoberta ajuda a determinar a provável origem do objeto, que pode ter vindo das regiões mais distantes do cinturão de asteroides ou de além da órbita de Júpiter.
  • Os resultados também indicam que a poeira lançada para a atmosfera teve um papel ainda mais importante na extinção em massa do que os gases liberados pelo impacto.

A colisão que marcou o fim da era dos dinossauros continua sendo um dos acontecimentos mais estudados da história da Terra.

Mesmo após décadas de pesquisas, novas descobertas seguem revelando detalhes surpreendentes sobre o enorme asteroide que atingiu o planeta há cerca de 66 milhões de anos. Agora, um estudo internacional trouxe uma resposta para uma das perguntas mais antigas da ciência: afinal, que tipo de asteroide foi responsável por uma das maiores extinções em massa já registradas?

A resposta é surpreendente. Segundo a pesquisa publicada na revista científica Science Advances, o objeto que formou a famosa cratera de Chicxulub era um condrito CO, uma categoria extremamente rara de meteoritos que preserva características praticamente intactas desde os primeiros momentos da formação do Sistema Solar.

Essa descoberta representa um importante avanço para a geologia e para a astronomia, pois ajuda os cientistas a compreenderem não apenas a origem desse visitante espacial, mas também como um evento tão raro conseguiu alterar completamente o rumo da evolução da vida em nosso planeta.

Cientistas encontraram pistas escondidas em uma fina camada de argila

Identificar a composição de um asteroide que desapareceu há milhões de anos parecia uma tarefa praticamente impossível. Afinal, o impacto foi tão violento que o objeto praticamente vaporizou no momento da colisão.

Mesmo assim, uma pequena parte de seu material ficou preservada em uma fina camada de argila espalhada por diversas regiões do planeta. Essa camada foi depositada logo após o impacto e funciona como uma verdadeira cápsula do tempo geológica.

Pesquisadores do Institut de Physique du Globe de Paris, da Université de Paris, da Vrije Universiteit Brussel, da Universidade da Colúmbia Britânica e da Universidade de Viena analisaram esse material utilizando técnicas extremamente precisas para medir isótopos de níquel.

Os isótopos funcionam como uma espécie de impressão digital química. Cada tipo de meteorito apresenta uma combinação única desses elementos, permitindo que os pesquisadores comparem as assinaturas encontradas na argila com as de diferentes classes de meteoritos já conhecidas.

O desafio foi enorme porque apenas uma quantidade microscópica do asteroide original permaneceu preservada após a colisão. Ainda assim, os resultados foram consistentes e permitiram eliminar diversas hipóteses levantadas ao longo das últimas décadas.

Segundo os pesquisadores, a assinatura isotópica encontrada corresponde com grande precisão aos condritos CO ou, possivelmente, aos condritos CT, uma classe muito semelhante que ainda está sendo estudada pelos especialistas.

Um dos materiais mais antigos e raros do Sistema Solar

Os condritos CO fazem parte do grupo dos condritos carbonáceos, considerados alguns dos materiais mais antigos existentes no Sistema Solar. Essas rochas praticamente não sofreram alterações desde sua formação, há cerca de 4,5 bilhões de anos, preservando informações valiosas sobre o nascimento dos planetas.

Apesar de sua importância científica, esses meteoritos são extremamente incomuns. Aproximadamente 95% dos meteoritos encontrados na Terra pertencem a outras categorias. Os condritos carbonáceos representam apenas cerca de 5% dos exemplares catalogados, enquanto os condritos CO correspondem a apenas uma pequena fração desse grupo.

Essa raridade torna a descoberta ainda mais impressionante. Segundo o pesquisador Philippe Claeys, da Vrije Universiteit Brussel, os condritos CO possuem uma composição bastante diferente da maioria dos meteoritos encontrados em coleções científicas.

Eles apresentam quantidades muito menores de elementos voláteis, como carbono, água, zinco e enxofre. Essa característica acabou se tornando uma das principais evidências utilizadas pelos cientistas para identificar o verdadeiro tipo do impactor de Chicxulub.

O estudo também reforça conclusões apresentadas em uma pesquisa publicada em 2024 na revista Science, que já havia indicado que o objeto era um asteroide carbonáceo originado nas regiões externas do Sistema Solar. Agora, a nova análise conseguiu reduzir ainda mais as possibilidades, apontando para uma categoria muito específica.

A descoberta muda o entendimento sobre a extinção dos dinossauros

Durante muitos anos, diversos modelos científicos sugeriram que enormes quantidades de enxofre liberadas pelo impacto foram responsáveis pelas mudanças climáticas que levaram ao desaparecimento dos dinossauros.

No entanto, como os condritos CO possuem pouca concentração desse elemento, os pesquisadores acreditam que o próprio asteroide contribuiu com menos enxofre para a atmosfera do que se imaginava anteriormente.

Isso fortalece outra hipótese bastante aceita entre os especialistas: a de que o principal responsável pelo colapso ambiental foi a gigantesca nuvem de poeira, cinzas e fragmentos de rochas lançada para a atmosfera.

Essas partículas permaneceram suspensas por meses ou até anos, bloqueando parte da luz do Sol e provocando uma queda significativa nas temperaturas globais. Com menos luz chegando à superfície, plantas deixaram de realizar fotossíntese, cadeias alimentares entraram em colapso e inúmeras espécies desapareceram em um período relativamente curto na escala geológica.

Os cientistas estimam que o asteroide possuía entre 10 e 15 quilômetros de diâmetro e atingiu a Terra a aproximadamente 64 mil quilômetros por hora. A energia liberada foi equivalente a bilhões de bombas nucleares, formando a gigantesca cratera de Chicxulub, hoje enterrada sob a Península de Yucatán, no México.

Mesmo após milhões de anos, esse impacto continua sendo considerado um dos acontecimentos mais importantes da história da vida na Terra, pois abriu caminho para a diversificação dos mamíferos e, muito tempo depois, para o surgimento dos seres humanos.

Para Philippe Claeys, um dos autores do estudo, o fato de um objeto tão raro ter atingido exatamente a Terra mostra o quanto esse evento foi improvável. Em suas palavras, os dinossauros realmente tiveram um enorme azar ao cruzar o caminho de um dos visitantes mais incomuns de todo o Sistema Solar.

A nova descoberta não muda apenas a identidade do asteroide, mas também ajuda os cientistas a reconstruir com mais precisão um dos dias mais dramáticos que nosso planeta já viveu.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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