Principais destaques
- Cientistas descobriram que uma população dos Andes argentinos possui variantes genéticas que ajudam o organismo a processar melhor o arsênio.
- A adaptação pode ser resultado de milhares de anos de convivência com água naturalmente contaminada por esse elemento tóxico.
- O estudo representa uma das evidências mais claras de que seres humanos continuam evoluindo em resposta às condições extremas do ambiente.
A evolução humana continua acontecendo, mesmo que seus efeitos sejam percebidos apenas ao longo de milhares de anos. Um novo estudo chama a atenção justamente por revelar um exemplo impressionante desse processo: moradores de uma região remota dos Andes argentinos parecem ter desenvolvido uma adaptação genética que permite ao organismo lidar muito melhor com o arsênio presente na água potável.
Para a maioria das pessoas, consumir água com altas concentrações desse elemento químico representa um sério risco à saúde. A exposição prolongada ao arsênio está associada ao desenvolvimento de câncer, lesões na pele, doenças cardiovasculares, problemas neurológicos, complicações durante a gravidez e até morte precoce.
No entanto, pesquisadores descobriram que uma comunidade que vive há milhares de anos na região da Puna de Atacama apresenta uma capacidade incomum de transformar essa substância tóxica em compostos mais fáceis de eliminar pelo organismo.
A descoberta reforça a ideia de que a seleção natural continua atuando sobre a espécie humana sempre que determinadas características aumentam as chances de sobrevivência em ambientes extremos. Assim como populações desenvolveram adaptações para viver em grandes altitudes ou suportar temperaturas muito baixas, os habitantes dessa região podem ter evoluído uma proteção biológica contra um dos contaminantes naturais mais perigosos do planeta.
Uma água que seria considerada imprópria para quase toda a população
O município de San Antonio de los Cobres está localizado a aproximadamente 3.775 metros acima do nível do mar, no norte da Argentina. A cidade faz parte da região conhecida como Puna de Atacama, caracterizada pelo clima seco, pela elevada altitude e pela intensa atividade geológica ocorrida ao longo de milhões de anos.
As formações vulcânicas presentes no solo liberam naturalmente arsênio para os lençóis subterrâneos. Como consequência, durante muito tempo a água utilizada pelos moradores apresentou concentrações extremamente elevadas desse elemento.
Antes da instalação de um sistema de tratamento em 2012, a água consumida na cidade continha cerca de 200 microgramas de arsênio por litro. O valor corresponde a aproximadamente vinte vezes o limite máximo recomendado pela Organização Mundial da Saúde, que estabelece 10 microgramas por litro como nível seguro para consumo humano.
Em praticamente qualquer outra região do mundo, uma exposição tão prolongada seria suficiente para aumentar significativamente o número de doenças relacionadas ao arsênio. Ainda assim, populações vivem naquela área há pelo menos sete mil anos, existindo evidências arqueológicas que sugerem ocupação humana há até onze mil anos.
Esse aparente paradoxo intrigou cientistas durante décadas.
A pista surgiu muito antes da análise genética
Na década de 1990, pesquisadores observaram que mulheres da região apresentavam um metabolismo diferente do esperado para o arsênio. Exames de urina mostraram que elas produziam quantidades muito menores de uma forma intermediária altamente tóxica da substância.
Quando o arsênio entra no organismo, ele passa por diferentes etapas químicas antes de ser eliminado. Durante esse processo é formada uma molécula chamada MMA, considerada uma das formas mais perigosas do elemento. Posteriormente ela é convertida em DMA, um composto menos tóxico que pode ser eliminado com maior facilidade pela urina.
Os moradores de San Antonio de los Cobres demonstravam uma capacidade muito superior de realizar essa conversão rapidamente. Isso significava que seus organismos permaneciam menos tempo expostos às formas mais nocivas do arsênio.
Na época, os pesquisadores acreditavam que poderia existir alguma explicação genética para esse fenômeno, mas ainda não havia tecnologia suficiente para confirmar a hipótese.
O DNA revelou uma adaptação surpreendente
Anos depois, uma equipe liderada por pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia, decidiu investigar o caso utilizando técnicas modernas de análise genética.
Os cientistas coletaram amostras de DNA de 124 mulheres da comunidade por meio de células retiradas da mucosa da boca. Em seguida, compararam milhões de marcadores genéticos com bancos de dados internacionais contendo informações de populações do Peru e da Colômbia, que possuem origem genética semelhante, mas vivem em ambientes diferentes.
A atenção dos pesquisadores concentrou-se no gene AS3MT, conhecido por produzir uma enzima essencial para o metabolismo do arsênio.
Os resultados mostraram que determinadas variantes desse gene eram muito mais frequentes entre os habitantes da cidade argentina do que nas populações analisadas para comparação.
Segundo os autores, essas variantes tornam o organismo mais eficiente na transformação do arsênio em compostos menos tóxicos, reduzindo o acúmulo das formas intermediárias mais perigosas e acelerando sua eliminação pela urina.
Essa descoberta coincidiu perfeitamente com os estudos anteriores realizados na década de 1990, reforçando que a diferença observada realmente tinha origem genética.
A seleção natural pode explicar essa vantagem
Os pesquisadores acreditam que a presença constante de arsênio na água funcionou como uma pressão evolutiva ao longo de milhares de anos.
Indivíduos que possuíam naturalmente essas variantes genéticas provavelmente apresentavam menor risco de desenvolver doenças relacionadas ao arsênio. Com isso, tinham maiores chances de sobreviver, formar famílias e transmitir essa característica aos descendentes.
Ao longo de centenas de gerações, essa vantagem evolutiva fez com que a frequência dessas variantes aumentasse dentro da população.
Esse mecanismo é exatamente o mesmo que explica outras adaptações conhecidas da espécie humana, como a capacidade de alguns povos viverem em regiões extremamente altas com baixos níveis de oxigênio ou a persistência da produção da enzima lactase em adultos de determinadas populações.
No caso dos Andes argentinos, porém, trata-se de uma adaptação particularmente rara, pois envolve a tolerância a uma substância tóxica presente no ambiente.
A descoberta pode não ser exclusiva dessa comunidade
Embora San Antonio de los Cobres tenha sido o principal foco da pesquisa, estudos mais recentes indicam que populações de outras áreas dos Andes também apresentam sinais semelhantes de adaptação ao arsênio.
Isso sugere que o fenômeno pode ser mais amplo do que se imaginava inicialmente e que diferentes comunidades expostas ao contaminante por milhares de anos passaram por processos evolutivos parecidos.
Os cientistas destacam, entretanto, que essa adaptação não torna o arsênio inofensivo. Ela apenas reduz parte dos seus efeitos tóxicos e não significa que qualquer pessoa possa consumir água contaminada sem riscos.
Mesmo assim, a descoberta representa um dos exemplos mais convincentes de adaptação humana recente a um agente químico presente no ambiente.
Além de ampliar o conhecimento sobre evolução, o estudo também pode contribuir para pesquisas médicas voltadas à compreensão dos mecanismos naturais de desintoxicação do organismo e ao desenvolvimento de estratégias para proteger populações expostas ao arsênio em diferentes partes do mundo.
A história dos moradores dos Andes argentinos mostra que a evolução continua escrevendo novos capítulos da trajetória humana. Nosso DNA ainda guarda registros das dificuldades enfrentadas por nossos ancestrais e revela como a sobrevivência, ao longo de milhares de anos, pode transformar profundamente uma população.
