Principais destaques
- Rede mundial de 1,5 milhão de quilômetros de cabos pode detectar movimentos no fundo do mar
- Projeto FOCUS comprovou que fibras ópticas identificam pequenas deformações causadas por falhas tectônicas
- Estrutura já instalada pode reforçar alertas de terremotos, tsunamis e até monitorar mudanças climáticas
Os cabos submarinos que sustentam a internet global podem ganhar uma nova e vital função: atuar como sensores gigantes espalhados pelos oceanos para detectar terremotos e tsunamis.
Cientistas demonstraram que a mesma infraestrutura usada para transmitir dados pode registrar mínimas deformações no fundo do mar, abrindo caminho para um sistema de alerta precoce mais eficiente.
Atualmente, cerca de 70% da superfície do planeta é coberta por oceanos, onde prever terremotos é praticamente impossível.
No entanto, existe uma rede com aproximadamente 1,5 milhão de quilômetros de cabos espalhados pelo leito marinho. Pesquisadores acreditam que essa malha pode se transformar em uma poderosa aliada no monitoramento de atividades sísmicas.
Testes no Mediterrâneo revelam potencial da tecnologia
O projeto FOCUS realizou seu principal experimento próximo a Catânia, na Sicília, região marcada por intensa atividade sísmica e localizada aos pés do Monte Etna.
Ali, uma falha tectônica do tipo strike-slip, conhecida por provocar terremotos, foi monitorada com a ajuda de um cabo especial enterrado sob o fundo do mar.
A área não foi escolhida por acaso. A região já sofreu tragédias históricas, como o terremoto de 1908, que devastou Messina e matou cerca de 72 mil pessoas, além do terremoto de 1693 que destruiu grande parte de Catânia.
Para o experimento, pesquisadores instalaram um cabo de seis quilômetros com fibras ópticas sensíveis à deformação, conectado a um observatório submarino operado pelo INFN-LNS.
Pulsos de laser percorriam a estrutura a cada duas horas, usando uma técnica chamada BOTDR, tradicionalmente aplicada na inspeção de pontes, barragens e oleodutos.
Alarmes falsos confirmaram a eficiência do sistema
Pouco tempo após a instalação, em novembro de 2020, o sistema registrou uma deformação de cerca de 1,5 centímetro.
A princípio, parecia um deslocamento da falha tectônica. Porém, sensores acústicos instalados no local indicaram que se tratava, provavelmente, de um deslizamento submarino de sedimentos.
Em outro teste, realizado em 2021, cientistas posicionaram manualmente sacos de peso sobre partes expostas do cabo para avaliar a sensibilidade das fibras.
O resultado foi claro: o sistema respondeu com sinais intensos e precisos, comprovando sua capacidade de detectar alterações mínimas no fundo marinho.
Mesmo sem registrar um terremoto real, os experimentos mostraram que os cabos são capazes de identificar perturbações naturais e artificiais com alto grau de precisão.
Cabos comerciais também podem monitorar o ambiente
Além do teste na Itália, o projeto analisou cabos comerciais que conectam ilhas do arquipélago de Guadalupe, no Caribe.
Entre 2022 e 2024, medições periódicas revelaram variações sazonais de temperatura no fundo do mar com precisão de até 0,1 grau Celsius.
Os pesquisadores também identificaram pontos de maior tensão mecânica em regiões expostas a correntes fortes, cânions submarinos e tempestades.
Esses dados indicam que cabos já existentes podem servir não apenas para detectar terremotos, mas também para monitorar mudanças ambientais e impactos climáticos.
A conclusão é promissora. Transformar parte da infraestrutura global de telecomunicações em sensores sísmicos e ambientais pode representar um avanço decisivo na prevenção de desastres naturais.
Em vez de instalar equipamentos caros e isolados, seria possível aproveitar uma rede já instalada nos oceanos, ampliando a capacidade de alerta e salvando vidas.
