Cientistas propõem que o intestino foi o primeiro cérebro do corpo

Renê Fraga
10 min de leitura

Principais destaques

  • Uma nova hipótese evolutiva: pesquisadores australianos propõem que o sistema nervoso do intestino pode ter surgido antes do cérebro.
  • Autonomia surpreendente: o sistema nervoso entérico consegue coordenar movimentos digestivos e processar informações sem depender diretamente do cérebro.
  • Impacto na pesquisa médica: a hipótese pode abrir novas perspectivas para investigar doenças que envolvem o intestino, o metabolismo e o sistema nervoso.

E se o cérebro não tivesse sido o ponto de partida da inteligência animal, mas uma estrutura que surgiu para atender às necessidades de outro órgão?

Pesquisadores da Flinders University, na Austrália, estão defendendo uma perspectiva diferente sobre a evolução do sistema nervoso: o intestino pode ter abrigado algumas das primeiras redes nervosas complexas dos organismos, muito antes do aparecimento do cérebro como o conhecemos.

A proposta foi apresentada em um artigo de opinião publicado no periódico The Journal of Physiology. O trabalho foi divulgado pelo Phys.org em 19 de outubro de 2026 e sugere que a necessidade de obter energia, processar nutrientes e coordenar a digestão pode ter desempenhado um papel fundamental na evolução do sistema nervoso.

Não se trata, porém, da descoberta de um novo órgão ou de um experimento que comprovou essa sequência evolutiva. Os autores propõem uma nova interpretação de evidências científicas acumuladas ao longo de anos.

🧠 O intestino pode ter sido o primeiro centro de comando?

O sistema nervoso entérico costuma receber o apelido de segundo cérebro. Ele é formado por uma extensa rede de neurônios distribuídos pelas paredes do trato gastrointestinal e controla funções essenciais, como os movimentos intestinais e a coordenação da digestão.

O que torna esse sistema particularmente interessante é sua autonomia. Ele consegue organizar atividades complexas sem depender de instruções contínuas do cérebro ou da medula espinhal.

Os pesquisadores Tim Hibberd, Hayley Rhodes e Nick J. Spencer, da Flinders University, argumentam que essa capacidade merece um lugar mais central nas explicações sobre a origem dos sistemas nervosos.

🔬 O ponto central da hipótese: antes de desenvolver estruturas nervosas centralizadas, os organismos podem ter dependido de redes locais capazes de detectar estímulos, processar informações e coordenar respostas relacionadas à alimentação e à sobrevivência.

“Estamos propondo uma forma diferente de olhar para o sistema nervoso”, explicou Hibberd, segundo o comunicado divulgado pela universidade.

Para o pesquisador, o sistema nervoso entérico reúne características que permitem compará-lo funcionalmente a um cérebro, embora sua organização e suas funções sejam diferentes das do sistema nervoso central.

⚡ Por que a digestão pode ter impulsionado a evolução?

Sobreviver exige energia. Para obtê-la, um organismo precisa interagir com o ambiente, identificar recursos alimentares, processar nutrientes e coordenar diferentes atividades fisiológicas.

Essa dependência energética ajuda a explicar o raciocínio dos pesquisadores.

Em vez de considerar o cérebro como o centro original a partir do qual todas as funções nervosas se organizaram, a hipótese coloca os processos digestivos e metabólicos no centro da história evolutiva.

🌱 A mudança de perspectiva: redes nervosas primitivas podem ter surgido para coordenar necessidades básicas de sobrevivência, e estruturas nervosas mais centralizadas teriam evoluído posteriormente, ampliando a capacidade de integração e resposta dos organismos.

Nick J. Spencer, autor sênior do artigo, destaca que o intestino está constantemente coletando informações e se comunicando com outros órgãos. A digestão e o metabolismo, nessa interpretação, não seriam apenas funções controladas pelo sistema nervoso, mas fatores que também podem ter influenciado sua evolução.

Isso não significa que os pesquisadores tenham demonstrado que o cérebro surgiu exclusivamente para servir ao intestino. A proposta é que as necessidades fisiológicas relacionadas à obtenção de energia podem ter sido uma das forças que favoreceram o desenvolvimento dos sistemas nervosos.

🔎 O que as pesquisas anteriores já mostraram?

A hipótese não surgiu do nada. Ela se apoia em estudos anteriores sobre a estrutura e o funcionamento do sistema nervoso entérico.

Em uma revisão publicada em 2020 na revista Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology, Spencer e um colega discutiram a capacidade do intestino de executar atividades nervosas complexas de maneira relativamente independente do sistema nervoso central.

Um exemplo ajuda a entender essa autonomia: segmentos intestinais retirados do organismo ainda podem produzir padrões coordenados de movimento em condições experimentais apropriadas.

O intestino humano também possui uma quantidade expressiva de neurônios. Uma tese da Flinders University citada no material estima um total entre 200 milhões e 600 milhões de neurônios entéricos.

CaracterísticaSistema nervoso entéricoSistema nervoso central
LocalizaçãoParedes do trato gastrointestinalEncéfalo e medula espinhal
Função principalCoordenar funções digestivas e intestinaisIntegrar informações e coordenar funções do organismo
AutonomiaExecuta diversos circuitos localmenteIntegra funções locais e informações de todo o corpo
Relação entre os sistemasComunica-se com o cérebro e outras estruturasModula funções intestinais, entre muitas outras

💡 O detalhe importante: a capacidade de um sistema nervoso funcionar de maneira relativamente autônoma demonstra sua complexidade, mas não prova, por si só, que ele tenha surgido antes do cérebro na história evolutiva.

Essa distinção é fundamental. Os pesquisadores estão usando evidências sobre o funcionamento atual do intestino para reconsiderar hipóteses sobre sua origem evolutiva. A autonomia observada hoje é relevante para a discussão, mas não constitui um registro direto dos primeiros sistemas nervosos.

🧬 Como provar uma hipótese de centenas de milhões de anos?

É aqui que a proposta encontra seu maior desafio.

A evolução dos sistemas nervosos ocorreu em uma escala de tempo muito anterior à existência de registros fósseis detalhados de tecidos nervosos. Como resultado, reconstruir a sequência em que diferentes estruturas surgiram exige combinar evidências anatômicas, fisiológicas, genéticas e evolutivas.

Além disso, os sistemas nervosos dos animais atuais não são necessariamente versões preservadas de estruturas ancestrais. Eles passaram por milhões de anos de transformações, adaptações e especializações.

Por isso, a hipótese apresentada pela equipe da Flinders deve ser entendida como uma interpretação científica em discussão, não como um consenso estabelecido de que o intestino precedeu o cérebro.

🩺 O que isso pode mudar na medicina?

Os pesquisadores não esperam que a proposta transforme imediatamente os tratamentos médicos. A possível contribuição está em ampliar as perguntas feitas pela ciência.

O sistema nervoso entérico e suas conexões com outras partes do organismo já são relevantes para pesquisas sobre diferentes condições, incluindo:

• Doenças digestivas: alterações nos circuitos nervosos que regulam os movimentos e as funções intestinais.

• Obesidade e diabetes: relações entre digestão, metabolismo, regulação energética e comunicação entre órgãos.

• Doença de Parkinson: investigação das conexões entre o trato gastrointestinal e processos neurológicos.

Essas associações não significam que a hipótese evolutiva explique diretamente essas doenças ou que uma nova terapia esteja prestes a surgir. A importância está em incentivar estudos que considerem o intestino não apenas como um órgão digestivo, mas também como uma rede nervosa complexa, integrada ao restante do corpo.

🔭 E se estivermos olhando para a evolução pelo lado errado?

Durante muito tempo, a imagem mais intuitiva do sistema nervoso foi a de um cérebro central comandando o restante do organismo. A proposta dos pesquisadores australianos convida a inverter essa perspectiva.

Talvez algumas das primeiras redes nervosas tenham se desenvolvido em torno de necessidades fisiológicas fundamentais, como obter energia e processar alimentos. Com o tempo, a evolução poderia ter favorecido sistemas cada vez mais especializados na integração de informações.

A questão ainda está longe de ser resolvida. O artigo não encerra o debate sobre a origem do cérebro, mas propõe que a história evolutiva do sistema nervoso seja examinada também a partir do intestino.

Se essa perspectiva ganhar apoio em futuras pesquisas comparativas e evolutivas, o chamado segundo cérebro poderá ocupar um papel muito mais importante nas explicações sobre como os sistemas nervosos surgiram. Até lá, permanece uma pergunta fascinante: o cérebro foi o protagonista desde o começo ou uma das grandes inovações de uma história que começou em outro lugar?

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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