De leite de barata a cuecas enterradas: os Ig Nobels de 2026 premiam a ciência mais improvável

Renê Fraga
7 min de leitura

Principais destaques

  • Ciência fora do comum: pesquisas sobre leite de baratas, assoar o nariz e evolução do beijo estão entre os trabalhos reconhecidos.
  • Cuecas viraram experimento: pesquisadores enterraram 1.000 peças de roupa íntima em mais de 25 países para estudar a saúde do solo.
  • Prêmio mudou de país: pela primeira vez em 35 anos, a cerimônia saiu dos EUA e foi realizada em Zurique, na Suíça.

A ciência nem sempre começa com uma pergunta que parece importante. Às vezes, começa com uma barata, uma cueca ou alguém querendo descobrir qual é exatamente a melhor maneira de assoar o nariz.

Foi esse espírito que tomou conta da edição de 2026 do Ig Nobel, premiação que celebra pesquisas reais, inusitadas e capazes de provocar primeiro uma risada e, depois, alguma reflexão.

Dez equipes de pesquisa receberam os prêmios nesta quinta-feira, em uma cerimônia realizada em Zurique, na Suíça.

LIVE: Ig Nobel Prize ceremony 2026 for odd and funny scientific studies

A barata também entrou para o laboratório 🪳

Entre os trabalhos reconhecidos está uma pesquisa sobre leite de barata. O tema parece saído de uma piada, mas faz parte de investigações científicas sobre propriedades e características pouco convencionais desses insetos.

O evento também homenageou Matilda Brindle e Stuart West, da Universidade de Oxford, e Catherine F. Talbot, do Florida Institute of Technology.

O trio reconstruiu a história evolutiva do beijo, transformando uma das manifestações humanas mais universais em objeto de investigação científica.

💋 Beijar também tem história evolutiva: a pesquisa tenta entender como esse comportamento surgiu e se desenvolveu ao longo do tempo.

E alguém resolveu estudar o ato de assoar o nariz 🤧

Outro trabalho premiado veio do falecido Dr. Tokuji Unno, que investigou a ciência por trás de assoar o nariz.

É o tipo de assunto cotidiano que normalmente desaparece da nossa atenção em poucos segundos. Mas, quando colocado sob o microscópio científico, até esse gesto banal pode render uma pergunta de pesquisa.

E esse é justamente um dos princípios do Ig Nobel: reconhecer trabalhos que fazem o público rir, mas que também podem fazê-lo pensar.

💡 A graça está justamente nisso: primeiro você ri da pergunta. Depois percebe que alguém realmente precisava respondê-la.

A experiência que envolveu 1.000 cuecas 👖

Talvez nenhum experimento resuma melhor o espírito da premiação do que o estudo que colocou 1.000 pares de cuecas no solo de mais de 25 países.

A intenção não era criar a maior coleção mundial de roupas íntimas enterradas.

Os pesquisadores queriam observar como os organismos presentes no solo contribuíam para a decomposição do tecido. A roupa funciona, portanto, como uma espécie de indicador biológico da atividade do solo.

🔎 Por que cuecas? O tecido oferece um material orgânico relativamente padronizado que pode ajudar os pesquisadores a observar diferenças na atividade de decomposição entre ambientes.

O resultado é uma metodologia difícil de esquecer. Afinal, poucos experimentos científicos podem ser resumidos honestamente como: “enterramos mil cuecas em vários países e esperamos para ver o que acontece”.

O Ig Nobel mudou de continente 🌍

A edição de 2026 também marcou uma mudança histórica para a premiação.

Depois de 35 anos nos Estados Unidos, a cerimônia foi realizada pela primeira vez fora do país. O evento aconteceu em um centro de convenções de Zurique, na Suíça.

A mudança ocorreu em meio a preocupações relacionadas à possibilidade de participantes conseguirem vistos para viajar aos EUA.

Segundo Marc Abrahams, editor da revista Annals of Improbable Research e mestre de cerimônias do evento, tornou-se inseguro para os convidados visitar o país durante o último ano.

A organização pretende manter a premiação na Europa nas próximas edições, alternando entre Zurique e outras cidades.

Em 2027, a festa vai para a Bélgica 🇧🇪

A próxima edição já tem endereço definido.

O Ig Nobel de 2027 será realizado em Antuérpia, na Bélgica. Não há planos imediatos para que a cerimônia volte aos Estados Unidos.

A mudança encerra uma longa tradição. As edições anteriores passaram por instituições como Harvard, MIT e Boston University.

Mas há uma coisa que aparentemente não mudou.

✈️ A tradição continua: o público ainda lançou aviõezinhos de papel em direção ao palco para marcar o início da cerimônia.

É uma das marcas mais curiosas do evento, que mantém deliberadamente um clima menos solene do que o das premiações científicas tradicionais.

O anti-Nobel continua fazendo seu trabalho 🏆

Os vencedores receberam troféus personalizados com um desenho que mistura a aparência de um cogumelo com um pé humano.

A estética combina perfeitamente com uma premiação em que pesquisas sobre baratas, cuecas, beijos e assoar o nariz podem ocupar o mesmo palco.

O Ig Nobel não pretende substituir o Nobel, e os dois eventos não têm relação entre si. O Nobel tradicional anuncia seus vencedores no início de outubro.

A diferença está justamente no tipo de pergunta que cada premiação coloca no centro das atenções.

Uma celebra as descobertas consideradas mais importantes para a humanidade. A outra lembra que a curiosidade científica também pode começar em lugares extremamente estranhos.

E talvez essa seja a parte mais interessante de tudo.

Porque, no fim, uma cueca enterrada, um copo de leite de barata ou uma investigação sobre espirros e assoar o nariz têm algo em comum com qualquer grande pesquisa: alguém precisou olhar para aquilo e pensar “e se a gente descobrir como isso funciona?”

Em 2027, os pesquisadores levam essa mesma curiosidade para Antuérpia. E, considerando o histórico da premiação, é melhor não tentar adivinhar o que estará no próximo troféu.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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