Estudo revela que o mundo já pode ter tido dezenas de milhares de línguas

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • Pesquisadores estimam que o planeta já abrigou dezenas de milhares de línguas ao longo da história.
  • O auge da diversidade linguística aconteceu entre 1.000 e 3.000 anos atrás, antes de um longo processo de desaparecimento de idiomas.
  • Atualmente, cerca de 44% das línguas ainda faladas estão ameaçadas de extinção, e especialistas alertam que a tecnologia também pode influenciar esse cenário.

Quando pensamos na quantidade de idiomas existentes atualmente, é comum imaginar que vivemos no período de maior diversidade linguística da história.

Afinal, mais de 7.500 línguas ainda são faladas em diferentes regiões do planeta. No entanto, uma nova pesquisa publicada na revista científica Science desafia essa percepção e apresenta um cenário muito mais surpreendente: em algum momento do passado, a humanidade pode ter convivido com dezenas de milhares de línguas diferentes, um número muito superior ao registrado nos dias de hoje.

O estudo foi desenvolvido por uma equipe internacional formada por pesquisadores dos Estados Unidos, Espanha e Alemanha. Utilizando modelos computacionais e dados históricos, arqueológicos, demográficos e linguísticos, os cientistas reconstruíram a provável evolução da diversidade linguística ao longo dos últimos 12 mil anos.

O resultado mostra que o desaparecimento de idiomas não é um fenômeno recente, mas um processo contínuo que acompanha a própria história da civilização humana.

Segundo os pesquisadores, a maior diversidade linguística ocorreu entre mil e três mil anos atrás. Naquele período, diferentes povos ocupavam territórios menores, mantendo culturas relativamente isoladas umas das outras. Essa fragmentação favorecia o surgimento de novos idiomas e também ajudava a preservar línguas já existentes por muitas gerações.

O crescimento da humanidade também multiplicou o número de idiomas

Os modelos desenvolvidos pela equipe indicam que, há cerca de 12 mil anos, quando a agricultura ainda dava seus primeiros passos, o planeta possuía uma população estimada em aproximadamente 6 milhões de pessoas. Mesmo com um número tão reduzido de habitantes em comparação aos dias atuais, existiam entre 4.500 e 6.200 línguas diferentes espalhadas pelo mundo.

À medida que a população cresceu e novas comunidades surgiram, o número de idiomas também aumentou. Povos que permaneciam separados por montanhas, florestas, desertos e oceanos desenvolveram formas próprias de comunicação ao longo dos séculos. Em muitos casos, pequenas mudanças acumuladas durante gerações deram origem a novas línguas completamente distintas.

Os pesquisadores estimam que essa diversidade chegou a se multiplicar por dez antes de iniciar um longo período de redução. Esse processo ocorreu gradualmente e atravessou diferentes momentos da história, transformando profundamente o mapa linguístico do planeta.

Claire Bowern, linguista da Universidade Yale e uma das autoras do estudo, resume esse contraste de maneira impressionante. Segundo ela, o modelo começa com aproximadamente 5 mil línguas para uma população de apenas 6 milhões de pessoas. Hoje, existem cerca de 7.500 idiomas para mais de 8 bilhões de habitantes, uma diferença que evidencia como o crescimento populacional nem sempre significa maior diversidade cultural.

O declínio começou muito antes do colonialismo europeu

Durante décadas, muitos pesquisadores atribuíram a maior parte da perda de idiomas ao colonialismo europeu iniciado a partir do século XV. A expansão das potências coloniais realmente provocou o desaparecimento de inúmeras culturas e línguas indígenas em diversos continentes. Porém, o novo estudo mostra que esse fenômeno já estava em andamento muitos séculos antes.

Segundo os autores, grandes impérios da Antiguidade desempenharam um papel importante na redução da diversidade linguística. Civilizações como Roma, Grécia e outros grandes estados passaram a administrar extensos territórios, incentivando o uso de línguas comuns para facilitar o comércio, a administração pública, a cobrança de impostos e a comunicação entre diferentes regiões.

Com o tempo, idiomas utilizados por populações menores começaram a perder espaço. Em muitos casos, eles deixaram de ser ensinados às novas gerações, sendo substituídos pelas línguas dominantes. Esse processo ocorreu lentamente, mas seus efeitos foram acumulados ao longo de milhares de anos.

Os pesquisadores descrevem essa transformação como um longo processo de homogeneização cultural impulsionado pela expansão das populações humanas e pela formação de sociedades cada vez mais integradas.

As línguas atuais representam apenas uma pequena parte da história humana

Uma das conclusões mais marcantes da pesquisa é que os idiomas existentes hoje não representam toda a riqueza linguística já produzida pela humanidade. Na visão dos cientistas, eles são apenas uma pequena amostra do enorme patrimônio cultural que existiu ao longo dos últimos milênios.

Isso significa que milhares de línguas desapareceram sem deixar registros escritos, gramáticas ou dicionários. Em muitos casos, todo o conhecimento acumulado por essas comunidades também foi perdido. Tradições orais, histórias, mitos, formas de interpretar a natureza e conhecimentos sobre plantas, animais e medicina desapareceram junto com seus falantes.

Os pesquisadores afirmam que a sobrevivência de muitas línguas não ocorreu necessariamente porque eram mais fortes ou mais eficientes, mas devido a circunstâncias históricas específicas. Guerras, migrações, mudanças políticas, isolamento geográfico e transformações sociais influenciaram quais idiomas continuaram existindo e quais desapareceram definitivamente.

Quase metade dos idiomas existentes corre risco de desaparecer

Embora milhares de línguas ainda sejam faladas atualmente, o cenário continua preocupante. Dados do Ethnologue mostram que aproximadamente 3.200 idiomas, o equivalente a cerca de 44% das línguas do planeta, estão ameaçados de extinção.

Em muitas comunidades, apenas os moradores mais idosos ainda dominam o idioma tradicional. As gerações mais jovens costumam adotar línguas nacionais ou internacionais por questões de estudo, trabalho e acesso à tecnologia. Quando uma língua deixa de ser transmitida dentro das famílias, sua sobrevivência torna-se cada vez mais difícil.

Pesquisas anteriores já estimavam que, caso essa tendência continue, a velocidade do desaparecimento poderá aumentar nas próximas décadas. Em alguns cenários, pelo menos uma língua poderá deixar de existir todos os meses, reduzindo ainda mais a diversidade cultural da humanidade.

Especialistas destacam que preservar um idioma significa preservar também uma forma única de compreender o mundo. Cada língua possui expressões, conceitos e maneiras próprias de organizar o pensamento que muitas vezes não encontram tradução perfeita em outros idiomas.

A inteligência artificial pode influenciar o futuro dessa diversidade

O estudo também chama atenção para um desafio mais recente: o avanço da inteligência artificial. Atualmente, a maioria dos grandes modelos de IA é treinada utilizando apenas cerca de uma centena de idiomas, um número muito pequeno diante das mais de 7 mil línguas ainda faladas no planeta.

Na prática, isso significa que milhares de comunidades permanecem praticamente invisíveis no ambiente digital. Ferramentas de tradução automática, assistentes virtuais, sistemas de reconhecimento de voz e outras aplicações costumam oferecer suporte apenas para as línguas mais difundidas.

Especialistas alertam que essa diferença pode ampliar a exclusão digital de povos que falam idiomas minoritários. Ao mesmo tempo, eles ressaltam que a própria inteligência artificial também pode se tornar uma aliada na preservação linguística, ajudando a criar dicionários digitais, registrar a pronúncia de idiomas ameaçados, desenvolver sistemas de tradução e armazenar histórias orais para as futuras gerações.

Para os autores da pesquisa, compreender como a diversidade linguística evoluiu ao longo da história permite interpretar melhor a própria evolução das sociedades humanas. Mais do que simples formas de comunicação, as línguas representam memórias coletivas, conhecimentos acumulados durante séculos e diferentes maneiras de enxergar o mundo.

O estudo reforça que preservar os idiomas que ainda sobrevivem significa proteger uma parte fundamental da história da humanidade antes que ela desapareça para sempre.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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