Por que o lítio funciona contra o transtorno bipolar?

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • Um remédio antigo: o lítio começou a ser usado contra o transtorno bipolar em 1949 e continua sendo referência no tratamento.
  • Ação ampla no cérebro: o íon de lítio entra nas células e interfere em vários processos relacionados ao humor, energia, inflamação e funcionamento celular.
  • O mecanismo ainda não é totalmente conhecido: mesmo após décadas de pesquisa, os cientistas ainda não conseguem explicar completamente por que o lítio funciona tão bem em algumas pessoas.

O lítio costuma ser lembrado hoje como um componente de baterias de celulares, notebooks e carros elétricos. Mas, muito antes disso, um de seus usos mais importantes já estava na psiquiatria.

Desde 1949, o elemento é utilizado para tratar o transtorno bipolar. E há algo curioso nessa história: apesar de décadas de pesquisa e do surgimento de dezenas de medicamentos psiquiátricos, o lítio continua sendo considerado uma das principais referências para estabilizar o humor.

Mas por quê?

O problema é justamente o sobe e desce do humor 🧠

O transtorno bipolar pode envolver episódios de mania, hipomania e depressão. Na mania, a pessoa pode apresentar humor elevado, energia intensa, impulsividade, redução da necessidade de sono e comportamentos de risco.

Na depressão, ocorre praticamente o extremo oposto.

E isso cria um problema complicado para os medicamentos.

⚖️ Tratar um lado pode afetar o outro: antidepressivos, por exemplo, podem ajudar na depressão, mas, quando utilizados sem proteção adequada contra mania, podem desencadear episódios maníacos ou desestabilizar o quadro.

Por isso, o tratamento frequentemente combina diferentes classes de medicamentos, como antidepressivos, antipsicóticos e anticonvulsivantes estabilizadores do humor.

O lítio tem uma vantagem importante: consegue atuar nos dois polos.

O grande benefício pode estar entre as crises

O lítio pode ajudar tanto na mania quanto na depressão, mas seu principal papel, segundo os especialistas citados pela Live Science, está na prevenção de novas recaídas.

Ou seja, ele não é apenas utilizado para apagar um incêndio quando uma crise aparece.

A ideia é reduzir a probabilidade de que o incêndio volte.

💡 É justamente essa capacidade de prevenir novos episódios que ajuda a explicar por que o lítio continua sendo considerado um padrão-ouro no tratamento do transtorno bipolar.

E existe outra característica interessante nessa história: sua estrutura é extremamente simples.

Um íon pequeno que consegue entrar nas células 🔬

Os medicamentos de lítio normalmente são administrados como carbonato de lítio ou citrato de lítio.

No organismo, essas substâncias liberam íons de lítio.

O íon é pequeno e pode se comportar de maneira semelhante ao sódio, o que permite que atravesse determinados sistemas de transporte celular e entre nas células.

Isso é importante porque muitos medicamentos atuam principalmente em receptores localizados na superfície das células.

O lítio consegue ir além.

🔎 E aí começa a parte mais interessante: dentro das células, ele interfere em uma grande quantidade de processos bioquímicos diferentes.

O alvo que chamou muita atenção

Um dos mecanismos mais estudados envolve uma enzima chamada glicogênio sintase quinase 3, ou GSK-3.

O lítio inibe essa enzima.

O problema é que a GSK-3 não é responsável por apenas uma função. Ela participa de diversos processos celulares, incluindo:

• regulação da atividade dos genes;

• controle dos ritmos circadianos;

• processos relacionados à inflamação;

• sobrevivência das células.

Isso significa que bloquear a GSK-3 pode produzir uma série de efeitos em cascata.

E provavelmente é justamente essa ação em vários sistemas que ajuda a explicar a abrangência do lítio.

Dopamina e serotonina também entram na história 🧩

O transtorno bipolar envolve alterações nos sistemas de neurotransmissores associados a recompensa, motivação, cognição e humor.

Entre eles estão dopamina e serotonina.

Dependendo do momento do transtorno, esses sistemas podem apresentar atividade inadequada. A mania e a depressão, portanto, não são simplesmente versões “feliz” e “triste” da mesma emoção.

São estados neurobiológicos muito mais complexos.

O lítio parece ajudar a regular parte desses sistemas, embora os cientistas ainda não tenham conseguido montar um mapa completo de sua ação.

E ele faz ainda mais coisas

A lista não termina na GSK-3.

Pesquisadores também relacionam o lítio a processos como autofagia, mecanismo utilizado pelas células para eliminar componentes danificados e resíduos.

Há ainda evidências de efeitos antioxidantes e de melhora da função das mitocôndrias, estruturas responsáveis por grande parte da produção de energia celular.

⚡ Em outras palavras: um pequeno íon acaba influenciando processos ligados à energia, limpeza celular, inflamação, sobrevivência celular e regulação de genes.

É uma ação bastante ampla para uma molécula tão simples.

Então já sabemos exatamente como ele funciona?

Não.

E essa talvez seja uma das partes mais surpreendentes da história.

O lítio é utilizado há mais de 75 anos, mas seu mecanismo completo de ação terapêutica ainda não foi esclarecido.

Os pesquisadores sabem que ele interfere em vários sistemas e conseguem associar essas alterações a efeitos benéficos. O que ainda não está totalmente resolvido é como todas essas peças se combinam para produzir a estabilização do humor.

É como saber quais componentes de um motor estão funcionando, mas ainda não ter uma explicação completa de como todos eles trabalham juntos para produzir o movimento.

Mas o lítio não funciona para todo mundo ⚠️

Segundo os especialistas citados pela Live Science, aproximadamente um terço dos pacientes apresenta benefícios profundos, outro terço apresenta uma resposta intermediária e cerca de um terço não responde ao medicamento.

Isso cria um desafio importante.

O transtorno bipolar é cíclico. Para saber com segurança se um tratamento está conseguindo evitar novos episódios, pode ser necessário acompanhar o paciente por um período bastante longo.

E existe outra questão: o lítio tem uma janela terapêutica estreita.

Isso significa que a diferença entre uma concentração eficaz e uma concentração potencialmente tóxica é relativamente pequena.

Por isso, o tratamento exige acompanhamento médico e monitoramento adequado.

O preço da eficácia

Entre os possíveis efeitos adversos estão aumento da frequência urinária e tremores leves.

O uso inadequado ou níveis excessivos de lítio podem provocar toxicidade e afetar órgãos como rins e tireoide, razão pela qual o medicamento não deve ser ajustado por conta própria.

Isso também ajuda a explicar por que um medicamento tão antigo continua exigindo acompanhamento cuidadoso.

🧪 A simplicidade não significa ausência de complexidade: o composto é simples, mas seus efeitos no organismo são amplos.

Por que ele sobreviveu a tantas décadas?

A psiquiatria desenvolveu medicamentos cada vez mais sofisticados desde que o lítio começou a ser utilizado.

Mesmo assim, ele permaneceu.

Sua combinação de efeitos sobre mania, depressão e, principalmente, prevenção de recaídas faz com que continue ocupando uma posição especial no tratamento do transtorno bipolar.

E talvez exista uma ironia interessante nisso tudo.

O elemento que hoje alimenta a revolução dos carros elétricos também continua sendo usado para ajudar a estabilizar um dos sistemas mais complexos que conhecemos: o cérebro humano.

A ciência ainda está tentando descobrir exatamente por que um íon tão simples consegue fazer isso. E entender essa resposta pode abrir caminho para descobrir quais pacientes têm maior probabilidade de se beneficiar do lítio e como tornar seu uso ainda mais preciso.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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