Animais também sentem prazer com a desgraça alheia?

Renê Fraga
6 min de leitura

Principais destaques

  • Uma emoção difícil de explicar: a schadenfreude é o prazer sentido diante do infortúnio de outra pessoa, mas sua existência em animais ainda levanta dúvidas científicas.
  • Um papagaio que chamou atenção: Jack, uma ave-cinzenta-africana, viralizou ao imitar a tosse e os chiados do pai de sua tutora, que sofria de uma doença respiratória grave.
  • Comportamento não é prova de sentimento: mesmo quando um animal parece se divertir com o sofrimento alheio, demonstrar que ele experimenta essa emoção exige evidências mais robustas.

Um animal vê outro escorregar, perder uma disputa ou passar por uma situação desagradável. Ele parece satisfeito. Será que está rindo por dentro?

A ideia pode parecer engraçada, mas toca em uma questão importante para a ciência: até que ponto conseguimos reconhecer emoções humanas em outras espécies?

A palavra alemã schadenfreude descreve o prazer diante da desgraça alheia. Entre humanos, esse sentimento pode aparecer quando um rival fracassa, alguém arrogante é humilhado ou uma pessoa que nos prejudicou enfrenta as consequências de seus atos.

Mas transportar essa interpretação para o mundo animal é bem mais complicado.

🦜 O papagaio que parecia gostar de uma tosse

Em 2023, um papagaio-cinzento-africano chamado Jack viralizou ao reproduzir os sons de tosse e chiado emitidos pelo pai de sua tutora, que sofria de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).

O caso chamou atenção não apenas pela capacidade de imitação da ave, mas também pela alegação de que ela aparentemente não gostava do homem e parecia apreciar seus momentos de dificuldade.

A tutora chegou a afirmar que Jack tinha uma tosse favorita.

🔎 O detalhe que muda a interpretação: reproduzir um som associado ao sofrimento não significa necessariamente sentir prazer com ele. O papagaio poderia estar repetindo um ruído familiar, buscando atenção ou respondendo a uma reação que aprendeu a provocar.

Sem evidências adicionais, não é possível determinar qual dessas explicações corresponde ao que a ave realmente sentia.

🧠 Sentir prazer com o fracasso exige mais do que observar

A dificuldade está em separar o comportamento observável da experiência emocional que pode estar por trás dele.

Animais demonstram medo, excitação, agressividade, apego e uma variedade de respostas sociais. No entanto, identificar uma emoção específica exige cautela, especialmente quando ela envolve avaliar o sofrimento de outro indivíduo e sentir satisfação por isso.

💡 Parecer satisfeito com o sofrimento alheio não é o mesmo que sentir schadenfreude. A expressão do animal pode admitir várias interpretações.

Uma risada humana também não significa necessariamente alegria: podemos rir de nervosismo, constrangimento ou desconforto. Com outras espécies, interpretar expressões e comportamentos é ainda mais difícil, porque não podemos simplesmente perguntar o que elas estão sentindo.

🐾 E se o animal estiver apenas reagindo a um rival?

Existe outra complicação: o comportamento pode ter relação com competição social.

Um animal pode se beneficiar quando um rival perde acesso a alimento, território ou posição dentro de um grupo. Também pode demonstrar excitação diante de uma disputa ou reagir de maneira diferente quando um indivíduo familiar enfrenta dificuldades.

Essas respostas, porém, não demonstram automaticamente que o animal sente prazer com a dor ou a humilhação do outro.

Para sustentar essa hipótese, pesquisadores precisariam distinguir a satisfação decorrente de uma vantagem concreta de uma possível reação emocional ao infortúnio alheio.

🔬 Como os cientistas poderiam descobrir?

O desafio é desenvolver experimentos que permitam observar respostas consistentes sem atribuir aos animais motivações humanas por antecipação.

Seria necessário avaliar, por exemplo, se um indivíduo reage de maneira diferente quando um rival enfrenta um contratempo, quando um parceiro social passa pela mesma situação ou quando o acontecimento não produz nenhuma vantagem para ele.

Também seria importante descartar explicações alternativas, como curiosidade, aprendizagem, excitação ou simples associação entre determinado som e uma recompensa.

Isso não significa que a schadenfreude seja impossível em outras espécies. Significa que a existência de comportamentos semelhantes aos humanos ainda não basta para confirmar que a experiência subjetiva é a mesma.

🤔 Afinal, os animais podem gostar da desgraça alheia?

A possibilidade é uma questão legítima de pesquisa, mas o caso de Jack, por si só, não oferece uma resposta definitiva.

O episódio mostra como uma imitação aparentemente provocadora pode levar humanos a atribuir intenções complexas a um animal. Para descobrir se existe prazer genuíno diante do sofrimento alheio, será necessário ir além das aparências e investigar as circunstâncias em que esses comportamentos acontecem.

Afinal, quando um papagaio reproduz justamente o som que mais incomoda alguém, ele está provocando a pessoa de propósito ou apenas repetindo aquilo que aprendeu? Essa diferença pode ser muito maior do que parece.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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