Rádio eletrônica mais famosa de São Paulo já foi a primeira rádio de rock do Brasil

Renê Fraga
13 min de leitura

Principais destaques

  • A atual Energia 97 nasceu em 1983 como FM 97 Rock e é considerada por muitos especialistas a primeira rádio brasileira dedicada exclusivamente ao rock.
  • A emissora ficou famosa por tocar bandas desconhecidas, músicas raras e artistas que dificilmente encontravam espaço nas rádios comerciais da época.
  • Após uma série de transformações ao longo dos anos 1990, abandonou o rock e se tornou uma das maiores referências da música eletrônica no país.

Quando alguém fala em Energia 97, a maioria das pessoas imediatamente pensa em música eletrônica, eurodance, flashbacks dos anos 80 e 90 e programas tradicionais que marcaram gerações de ouvintes paulistas. Afinal, a emissora construiu sua identidade moderna justamente em torno desse universo, tornando-se uma das rádios mais reconhecidas do segmento no Brasil.

Mas existe um capítulo da sua história que muita gente desconhece. Muito antes de tocar dance music, promover festivais eletrônicos e se transformar em referência para fãs das pistas de dança, a emissora era uma rádio de rock extremamente ousada. Na verdade, ela surgiu em uma época em que praticamente nenhuma estação brasileira tinha coragem de dedicar toda a sua programação ao gênero.

Essa transformação radical faz da Energia 97 um dos casos mais curiosos da história do rádio nacional. A emissora que hoje representa um dos maiores símbolos da música eletrônica brasileira começou sua trajetória ajudando a divulgar bandas de rock, artistas independentes e músicas que raramente apareciam em outras frequências.

A rádio que nasceu para desafiar o mercado

A história começou em setembro de 1983, quando foi criada a FM 97, instalada em Santo André, no ABC Paulista. A emissora pertencia ao empresário José Antônio Constantino, proprietário da Rádio ABC. Porém, a ideia original partiu de seu filho, Zezinho Constantino, que tinha apenas 23 anos quando decidiu apostar em um projeto considerado arriscado para a época.

Nos anos 1980, o rádio brasileiro era dominado por programações bastante previsíveis. As emissoras costumavam repetir os mesmos sucessos comerciais e raramente abriam espaço para novidades que fugissem do padrão. Foi justamente contra essa lógica que a FM 97 decidiu lutar.

Seu slogan era simples, mas extremamente ambicioso:

“A Primeira Rádio do Rock”

A frase não era apenas uma estratégia de marketing. A proposta da emissora realmente era diferente. Enquanto outras rádios tocavam apenas os artistas mais populares, a FM 97 mergulhava em um universo musical muito mais amplo e experimental.

Além de divulgar nomes conhecidos do rock nacional, a programação incluía bandas independentes, gravações raras, lados B e grupos internacionais praticamente desconhecidos do grande público brasileiro. Era comum os ouvintes ouvirem pela primeira vez artistas que demorariam anos para conquistar reconhecimento mais amplo.

Para muitos jovens da época, a rádio funcionava como uma verdadeira escola musical.

O “algoritmo humano” antes da internet existir

Hoje basta abrir um aplicativo de streaming para receber recomendações automáticas de músicas baseadas nos seus gostos. Nos anos 1980, porém, a realidade era completamente diferente.

Sem internet, YouTube ou plataformas digitais, descobrir novas bandas era uma tarefa muito mais complicada. Nesse cenário, a FM 97 assumiu um papel fundamental para milhares de fãs de rock.

A programação servia como uma espécie de curadoria especializada. Os locutores apresentavam artistas pouco conhecidos, explicavam suas histórias e mostravam músicas que dificilmente chegariam às grandes rádios comerciais.

Era tão comum encontrar novidades na frequência que muitos ouvintes gravavam fitas cassete diretamente da programação. Essas gravações circulavam entre amigos, ajudando a espalhar bandas e estilos musicais que dificilmente teriam espaço em outros veículos.

De certa forma, a FM 97 funcionava como um “algoritmo humano” décadas antes de os algoritmos digitais se tornarem parte da rotina das pessoas.

O resultado foi a criação de uma comunidade extremamente fiel. Os ouvintes não ligavam o rádio apenas para escutar músicas. Eles buscavam descobrir algo novo.

Locutores tinham uma liberdade impensável para a época

Outro diferencial que ajudou a transformar a FM 97 em uma emissora cult foi a liberdade concedida aos seus comunicadores.

Entre os nomes mais lembrados pelos fãs está Edson Sant’Anna Júnior, conhecido como Jota Erre. Ele se tornou uma figura lendária justamente por fugir dos padrões tradicionais do rádio.

Enquanto outras emissoras controlavam rigidamente a duração das músicas e a sequência da programação, Jota Erre tinha liberdade para explorar faixas extensas e pouco convencionais.

Um dos episódios mais famosos envolve a música “Moby Dick”, do Led Zeppelin. A faixa é conhecida pelo longo solo de bateria executado por John Bonham e possui duração muito acima do padrão radiofônico.

Mesmo assim, ela foi ao ar em sua versão completa. Para os fãs de rock, isso era quase inacreditável. Para os executivos de rádio da época, parecia uma loucura comercial.

Mas era justamente essa ousadia que diferenciava a FM 97 de todas as concorrentes.

A emissora revelou profissionais que se tornariam famosos

A importância da rádio não se limitou à música.

Diversos profissionais que mais tarde conquistariam reconhecimento nacional passaram pelos seus estúdios.

Um dos exemplos mais conhecidos é Ciro Bottini. Antes de se tornar um dos vendedores mais famosos da televisão brasileira, ele trabalhou como locutor da FM 97 entre 1989 e 1992.

Na mesma época, Bottini também atuava como vocalista e guitarrista da banda de glam rock Proteus, mostrando como a emissora mantinha uma ligação profunda com a cena musical.

Outro nome importante foi Paulo Lima, apresentador do programa Surf Report.

O programa abordava muito mais do que música. Ele discutia comportamento, cultura jovem, esportes e temas ligados ao cotidiano. Essa proposta inovadora ajudou a moldar ideias que posteriormente contribuiriam para a criação da revista Trip, uma das publicações mais influentes do país em temas de comportamento e estilo de vida.

A rádio teve participação em um retorno histórico de Raul Seixas

Ao longo dos anos 1980, a FM 97 também ficou conhecida pelos grandes eventos que promovia.

As festas de aniversário da emissora atraíam multidões ao Clube Atlético Aramaçan, em Santo André. Em algumas edições, o público chegava a ultrapassar 10 mil pessoas.

Foi em uma dessas celebrações que ocorreu um momento marcante para a música brasileira.

Raul Seixas, um dos maiores ícones do rock nacional, voltou aos palcos ao lado de Marcelo Nova após um longo período afastado das apresentações ao vivo.

O retorno foi recebido com enorme entusiasmo pelos fãs e ajudou a reforçar a reputação da FM 97 como uma das principais defensoras do rock brasileiro naquele período.

Para muitos frequentadores, aquele foi um momento histórico que permanece vivo na memória até hoje.

Quando o rock perdeu espaço e a rádio precisou mudar

O início dos anos 1990 trouxe mudanças profundas para a indústria musical.

O rock nacional, que havia dominado boa parte da década anterior, começou a perder força comercial. As gravadoras passaram a investir menos no gênero, enquanto novos estilos ganhavam espaço nas rádios e nas pistas de dança.

A FM 97 sentiu diretamente esse movimento.

A audiência começou a mudar, o mercado publicitário passou a buscar novos públicos e a emissora percebeu que precisava se reinventar para continuar competitiva.

O processo foi gradual, mas culminou em uma transformação que poucos imaginavam.

O nascimento da Hot Nine Seven

Em dezembro de 1994, a FM 97 Rock deixou oficialmente de existir. Em seu lugar surgiu a Hot Nine Seven, uma marca inspirada em rádios americanas e totalmente voltada para a música eletrônica.

A mudança foi chocante para muitos ouvintes.

Praticamente da noite para o dia, as guitarras foram substituídas por sintetizadores, batidas eletrônicas e artistas que dominavam as pistas da época.

Nomes como Double You, Corona, Culture Beat e Real McCoy passaram a ocupar espaço na programação.

A estratégia refletia uma tendência mundial. O eurodance vivia seu auge e conquistava públicos em diversos países.

Mesmo assim, muitos fãs antigos sentiram que uma era havia chegado ao fim.

As mudanças que quase fizeram a rádio perder sua identidade

A fase dance não foi a única transformação pela qual a emissora passou.

Por volta de 1996, houve uma aproximação com o rap e o hip hop. A experiência foi tão séria que chegou a gerar o lançamento da coletânea “97 Rap”.

Apesar da iniciativa, essa fase durou pouco e acabou se tornando um capítulo quase esquecido da história da rádio.

Poucos anos depois veio outra tentativa ainda mais surpreendente.

Em 1999, a emissora resolveu abandonar temporariamente a música eletrônica para investir em uma programação popular baseada em pagode, sertanejo e axé.

O experimento não funcionou.

A audiência não respondeu como esperado e a rádio rapidamente voltou ao formato dance que já começava a consolidar sua nova identidade.

Como nasceu a Energia 97 que conhecemos hoje

Foi durante os anos 2000 que a emissora finalmente encontrou estabilidade.

A marca Energia 97 se fortaleceu e passou a ser associada definitivamente à música eletrônica, aos flashbacks e ao entretenimento.

Programas como Estádio 97 conquistaram enorme popularidade e ganharam vida própria. Já o Energia na Véia transformou a nostalgia musical dos anos 70, 80, 90 e 2000 em uma das marcas mais fortes da emissora.

Além disso, a rádio promoveu eventos gigantescos, incluindo o famoso Spirit of London, festival que trouxe artistas internacionais e reuniu milhares de pessoas em São Paulo durante mais de uma década.

Com isso, a antiga rádio de rock passou a ocupar uma posição de destaque dentro do universo da música eletrônica nacional.

A maior ironia da história da emissora

Poucas rádios brasileiras passaram por uma transformação tão radical quanto a Energia 97.

A emissora que hoje é lembrada por suas batidas eletrônicas nasceu como um projeto underground dedicado ao rock. Ela ajudou a divulgar bandas nacionais, apresentou artistas desconhecidos ao público, revelou comunicadores importantes e participou de momentos históricos da cultura brasileira.

Talvez a maior curiosidade seja justamente essa.

Se a mudança para a Hot Nine Seven nunca tivesse acontecido, é possível que a emissora fosse lembrada atualmente como a mais antiga e influente rádio de rock do país. Em vez disso, tornou-se uma das principais referências da música eletrônica brasileira.

E é exatamente essa capacidade de se reinventar que faz da sua trajetória uma das histórias mais fascinantes do rádio nacional.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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