- A ciência mostra que o Brasil sempre foi um ambiente favorável
- O chamado “corredor de tornados” da América do Sul
- O recente tornado no Rio Grande do Sul confirma o padrão conhecido
- Então por que parece que agora existem muito mais tornados?
- Os números mostram que o fenômeno está longe de ser raro
- O Brasil não virou os Estados Unidos, mas merece atenção
Principais destaques
- O Brasil nunca esteve livre de tornados. O fenômeno existe há décadas, mas era pouco registrado e frequentemente confundido com vendavais.
- Pesquisas da Universidade Federal de Santa Maria mostram que o Sul do Brasil está entre as regiões mais favoráveis da América do Sul para a formação de tornados.
- Meteorologistas afirmam que o aumento dos registros é resultado da combinação entre melhor monitoramento, maior documentação e uma atmosfera mais propícia a tempestades severas.
Durante muito tempo, a maioria dos brasileiros acreditou que tornados eram fenômenos exclusivos dos Estados Unidos. Filmes de Hollywood ajudaram a criar essa imagem, mostrando enormes funis de vento atravessando as planícies americanas enquanto destruíam cidades inteiras.
Por isso, quando vídeos de tornados começaram a aparecer no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, muita gente passou a acreditar que algo completamente novo estava acontecendo.
Mas a verdade é outra.
Os tornados nunca deixaram de existir no Brasil. Eles apenas eram muito menos registrados. Muitos aconteciam em áreas rurais, longe de câmeras e de estações meteorológicas, sendo classificados apenas como “vendavais”, “redemoinhos” ou “temporais muito fortes”. Hoje, com celulares, radares meteorológicos, imagens de satélite e redes sociais, praticamente qualquer fenômeno extremo é registrado em poucos minutos.
O caso mais recente ocorreu no Rio Grande do Sul. Segundo a MetSul Meteorologia, o tornado foi provocado por uma supercélula, o tipo mais intenso de tempestade existente na atmosfera. As imagens mostraram claramente o funil tocando o solo, algo que décadas atrás dificilmente teria sido documentado.
A pergunta que muita gente faz é inevitável: afinal, os tornados estão realmente aumentando ou apenas começamos a enxergá-los?
A ciência mostra que o Brasil sempre foi um ambiente favorável
Quem estuda meteorologia no Brasil já conhece essa resposta há bastante tempo.
Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) vêm documentando tornados há anos e demonstram que o Sul do país reúne praticamente todos os ingredientes necessários para a formação dessas tempestades.
Segundo o professor Ernani de Lima Nascimento, um dos maiores especialistas brasileiros em tempo severo e pesquisador da UFSM, o setor subtropical da América do Sul, especialmente a região localizada a leste da Cordilheira dos Andes, apresenta frequentemente os mesmos ingredientes atmosféricos encontrados em áreas famosas pela ocorrência de tornados, como as Grandes Planícies dos Estados Unidos. A diferença é que o banco de dados brasileiro ainda é muito menor, principalmente porque historicamente houve pouca documentação desses eventos.
Essa conclusão aparece em diversos estudos científicos publicados pela própria universidade.
Uma pesquisa liderada pelos meteorologistas Murilo Machado Lopes e Ernani de Lima Nascimento reuniu informações de fotografias, vídeos, imagens de satélite, registros históricos e relatos técnicos para construir um dos maiores bancos de dados sobre tornados já produzidos no país.
O resultado impressiona.
Foram catalogadas 310 ocorrências de tornados no Sul do Brasil, número muito superior aos registros oficiais existentes anteriormente. Os pesquisadores destacam que essa quantidade provavelmente ainda representa apenas parte da realidade, já que muitos episódios antigos jamais puderam ser confirmados.
O chamado “corredor de tornados” da América do Sul
Pouca gente sabe, mas existe um verdadeiro corredor de tempestades severas na América do Sul.
Ele engloba o norte da Argentina, o Paraguai, o Uruguai e grande parte da Região Sul do Brasil.
Segundo diversos estudos climatológicos, a posição geográfica da região favorece o encontro entre três ingredientes fundamentais:
- ar muito quente vindo da Amazônia;
- ar frio transportado pelas massas polares;
- grande quantidade de umidade.
Quando essas massas de ar se encontram, podem formar tempestades extremamente organizadas chamadas supercélulas.
De acordo com o Cemaden, essas nuvens apresentam intensa rotação interna e enorme desenvolvimento vertical, podendo ultrapassar 15 quilômetros de altura. É justamente delas que nascem a maior parte dos tornados mais fortes do planeta.
Pesquisadores da UFSM também identificaram que as frentes frias desempenham papel fundamental nesse processo.
Em um levantamento envolvendo tornados registrados entre 1959 e 2018, o climatologista Cássio Arthur Wollmann concluiu que a Frente Polar Atlântica participou da formação de aproximadamente 38% dos casos analisados, tornando-se o principal sistema meteorológico associado aos tornados brasileiros.
O recente tornado no Rio Grande do Sul confirma o padrão conhecido
O episódio registrado recentemente no Rio Grande do Sul reforçou exatamente esse comportamento já descrito pela ciência.
Segundo análise da MetSul Meteorologia, uma poderosa supercélula desenvolveu intensa rotação atmosférica antes de produzir o tornado. As imagens de radar mostraram características típicas desse tipo de tempestade, consideradas as mais violentas da natureza.
Meteorologistas da empresa destacaram que a estrutura da nuvem apresentava todos os elementos esperados para gerar um tornado, incluindo forte cisalhamento do vento, intensa corrente ascendente e organização persistente da tempestade.
Não se trata de um fenômeno isolado.
Nos últimos anos, a MetSul vem registrando diversos episódios semelhantes, principalmente no Rio Grande do Sul, mostrando que o estado continua sendo uma das regiões brasileiras com maior potencial para esse tipo de evento.
Então por que parece que agora existem muito mais tornados?
Existem três explicações principais.
A primeira é tecnológica.
Há vinte anos, um tornado podia cruzar uma área rural inteira sem que existisse uma única fotografia. Hoje praticamente qualquer pessoa possui um celular capaz de registrar vídeos em alta definição.
A segunda explicação está na evolução da meteorologia.
O Brasil possui hoje radares Doppler, satélites de alta resolução, modelos numéricos muito mais sofisticados e redes de observadores que permitem identificar tempestades severas quase em tempo real.
Por fim, existe a discussão sobre as mudanças climáticas.
Os pesquisadores evitam afirmar que o aquecimento global esteja aumentando diretamente o número de tornados, porque essa relação ainda é objeto de estudos internacionais. No entanto, há consenso de que uma atmosfera mais quente consegue armazenar mais vapor d’água e fornecer mais energia para tempestades intensas.
Em outras palavras, ainda não é possível dizer que o Brasil terá necessariamente mais tornados, mas há evidências de que episódios de tempo severo tendem a se tornar mais frequentes em um clima mais aquecido.
Os números mostram que o fenômeno está longe de ser raro
Dados oficiais do Atlas Socioeconômico do Rio Grande do Sul revelam que, entre 1991 e 2024, foram registrados 112 desastres relacionados a tornados no Brasil.
Santa Catarina lidera o ranking nacional.
O Rio Grande do Sul aparece logo atrás, sendo responsável por aproximadamente 27% de todas as ocorrências brasileiras.
No mesmo período, quase 24 mil pessoas foram afetadas por esses eventos extremos em todo o país.
Especialistas, porém, acreditam que esses números ainda estão subestimados.
Segundo os pesquisadores da UFSM, a quantidade real de tornados provavelmente é muito maior, já que inúmeros eventos históricos ocorreram sem qualquer documentação adequada.
O Brasil não virou os Estados Unidos, mas merece atenção
Apesar das imagens impressionantes, a maior parte dos tornados brasileiros possui intensidade inferior aos gigantes que atingem o chamado Tornado Alley, nos Estados Unidos.
Mesmo assim, eles são capazes de arrancar telhados, destruir casas, derrubar torres de energia, lançar veículos a dezenas de metros e provocar vítimas fatais.
A principal diferença é que hoje sabemos identificá-los.
O avanço da meteorologia brasileira, aliado ao trabalho de pesquisadores, universidades e empresas especializadas como a MetSul Meteorologia, vem mostrando que esses fenômenos sempre fizeram parte da climatologia nacional.
Talvez a maior mudança não esteja na atmosfera.
Ela está na nossa capacidade de observar, compreender e registrar aquilo que durante décadas passou despercebido.
