Estudo aponta que Van Gogh pode ter pintado “A Noite Estrelada” um mês depois do previsto

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • Uma nova data para a obra: estudo sugere que o céu retratado por Vincent van Gogh corresponde à madrugada de 22 de julho de 1889, e não a junho daquele ano.
  • Lua, Vênus e estrelas entram na investigação: pesquisadores identificaram uma possível correspondência entre o céu da época e os elementos celestes presentes na pintura.
  • O mistério continua aberto: a hipótese desafia a datação tradicional, mas não comprova o dia exato em que o artista concebeu a obra.

Uma das pinturas mais reconhecidas da história da arte pode guardar um detalhe astronômico capaz de mudar a interpretação de sua origem. Um estudo publicado em 22 de outubro na revista Scientific Reports sugere que “A Noite Estrelada”, de Vincent van Gogh, pode representar o céu antes do amanhecer de 22 de julho de 1889.

A hipótese desloca em aproximadamente um mês a data tradicionalmente associada à obra, geralmente situada em junho de 1889. Para chegar a essa conclusão, pesquisadores da empresa sul-coreana de ciência espacial SLLAB e da Escola de Pesquisa Espacial da Universidade Kyung Hee combinaram observações astronômicas, registros meteorológicos e análise geométrica das estrelas pintadas.

O resultado não encerra o debate sobre a obra. Mas coloca uma questão interessante: e se parte do céu que inspirou uma das pinturas mais famosas do mundo tiver sido observada em uma madrugada diferente daquela que os historiadores consideravam mais provável?

🌙 O detalhe que não se encaixava

A datação tradicional está relacionada a uma carta que Van Gogh escreveu ao irmão, Theo, por volta de 18 de junho de 1889. A correspondência ajuda a situar o período de criação da obra, mas existe um problema quando os pesquisadores comparam essa data com a posição dos astros.

🔎 O ponto central da investigação: a Lua representada na pintura aparece como um fino crescente. Entretanto, em meados de junho daquele ano, ela estava em fase minguante gibosa, também chamada de minguante convexa, com uma porção iluminada maior do que a sugerida na tela.

Essa diferença levou os pesquisadores a investigar outras datas possíveis, buscando uma configuração astronômica mais compatível com os elementos pintados.

Por volta de 22 de julho de 1889, a situação era diferente. A Lua apresentava uma forma mais próxima daquela retratada por Van Gogh, enquanto Vênus e o aglomerado estelar das Híades, na constelação de Touro, apareciam próximos uns dos outros no céu antes do amanhecer.

A combinação ofereceu uma explicação alternativa para a cena.

✨ As estrelas podem revelar a data

A equipe também investigou a disposição das estrelas no quadro. Em vez de depender apenas de uma semelhança visual, os pesquisadores aplicaram a análise de forma de Procrustes, um método matemático usado para comparar configurações geométricas.

O procedimento permitiu associar as cinco estrelas centrais da pintura ao aglomerado das Híades.

Estudos anteriores haviam interpretado esse conjunto como uma representação da constelação de Áries. A nova pesquisa propõe outra leitura, baseada na configuração das estrelas e em sua posição no céu durante o período investigado.

A hipótese não depende apenas de a pintura parecer um céu noturno. Ela tenta encontrar uma configuração astronômica que corresponda aos elementos específicos da tela.

🌌 E havia outro indício: os pesquisadores examinaram registros meteorológicos de 1889. Segundo o estudo, as condições indicadas para o período de julho eram compatíveis com um céu suficientemente limpo para permitir a observação dos astros.

Isso não prova que Van Gogh tenha observado exatamente aquela configuração, mas reforça a plausibilidade da hipótese.

🇫🇷 Uma investigação que começou na França

Elijah Jeong-hyun Kim, CEO da SLLAB e doutorando na Universidade Kyung Hee, primeiro autor do estudo, também realizou observações de campo na França em 2019.

Ele visitou a região em duas ocasiões: uma em meados de junho e outra por volta de 22 de julho. Durante a segunda visita, observou estrelas brilhantes surgindo antes do amanhecer, enquanto não encontrou a mesma configuração na visita de junho, segundo informações da Associated Press.

A experiência ajudou a motivar a investigação sobre as posições dos astros no período retratado.

A pesquisa também examinou uma questão histórica importante: a relação entre a data proposta e as crises de saúde enfrentadas por Van Gogh durante sua permanência em Saint-Rémy-de-Provence.

Presumia-se que 22 de julho coincidisse com uma dessas crises. A equipe, porém, argumenta que ela teria começado mais tarde naquele mês, considerando cartas do artista, dados de temperatura e referências às cigarras.

Essa interpretação é relevante porque procura aproximar a hipótese astronômica do contexto biográfico do pintor, sem depender exclusivamente da aparência da tela.

🎨 Van Gogh pintou o céu exatamente como o viu?

É aqui que a pesquisa encontra seu principal limite.

Van Gogh produziu “A Noite Estrelada” durante sua permanência em um asilo em Saint-Rémy-de-Provence. A obra não deve ser entendida necessariamente como uma reprodução literal e instantânea do céu: o artista trabalhava com esboços, observações anteriores e memória.

Por isso, mesmo que a configuração astronômica de julho seja compatível com a pintura, não é possível afirmar que todos os elementos tenham sido observados na mesma noite.

Jose Luis Aragon, físico da Universidade Nacional Autônoma do México que já estudou a obra e não participou da nova pesquisa, considerou a investigação uma abordagem interessante para um problema real relacionado à Lua representada na tela. Ao mesmo tempo, classificou a data de julho como uma hipótese, não uma resposta definitiva, em declarações à Associated Press.

O céu da pintura pode combinar observações reais com a interpretação artística de Van Gogh, em vez de reproduzir uma única madrugada com precisão documental.

A distinção é importante: uma obra pode partir de observações astronômicas precisas e, ainda assim, reorganizar o céu para alcançar determinado efeito visual e emocional.

☕ Outra pintura também pode esconder um mapa celeste

A investigação não se limitou a “A Noite Estrelada”. Usando o mesmo método, os pesquisadores sugeriram que as estrelas representadas em “Terraço do Café à Noite”, de 1888, podem corresponder ao Triângulo de Verão, um asterismo formado por três estrelas brilhantes: Vega, Deneb e Altair.

A proposta amplia a possibilidade de utilizar ferramentas astronômicas para estudar pinturas históricas. Em vez de tratar o céu como um elemento puramente decorativo, os pesquisadores procuram identificar configurações reais que possam ter servido de referência aos artistas.

Isso não significa que toda representação de estrelas esconda um registro científico. Significa que a combinação entre história da arte, astronomia e análise matemática pode produzir novas hipóteses sobre o processo criativo.

🔭 O MoMA continuará indicando junho?

“A Noite Estrelada” integra o acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), que registra junho de 1889 como a data da obra.

A nova pesquisa ainda não estabelece evidências suficientes para transformar julho em uma data definitiva. O próprio Kim reconheceu que gostaria de ver a pintura pessoalmente, depois da publicação do artigo.

A diferença entre as duas datas pode parecer pequena diante dos mais de 130 anos que nos separam da criação do quadro. Ainda assim, ela revela como uma informação aparentemente simples, a fase da Lua, pode abrir uma nova linha de investigação sobre uma obra amplamente estudada.

Por enquanto, junho continua sendo a data tradicional, enquanto julho ganha força como hipótese astronômica. E o céu turbulento de Van Gogh permanece entre a observação científica e a liberdade da criação artística.

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Renê Fraga é criador do Muito Curioso e editor-chefe do Eurisko. Profissional com mais de duas décadas de experiência em conteúdo digital, escreve sobre ciência, história, cultura e curiosidades com foco em explicação, contexto e aprendizado acessível. No Muito Curioso, transforma perguntas simples em conhecimento contextualizado para leitores que gostam de aprender algo novo todos os dias.
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